Mochilão Patagônia – 12º Dia – Trekking Laguna de Los Três – Argentina



Tínhamos planejado acordar cedo para fazer o trekking da Laguna de Los Tres. Porém a cervejada do dia anterior atrapalhou um pouco o planejamento. Acordamos 08:30. Estava ventando bastante, e então resolvemos procurar algum lugar para tomar o café da manhã e e ver se tinha a possibilidade de fazer o trekking planejado. Porque no guia da cidade informava que era perigoso fazer aquela trilha com vento forte, porque na parte final a trilha é muito exposta ao vento, e também é em altitude. Tomamos café e no caminho de volta ao hostel encontramos na estrada a espanhola da noite anterior,  estava toda cheia de casacos  e à procura de um guia para fazer escalada em algum lugar. Ela nos deu umas dicas de como agir em caso de ventos muito fortes. Voltamos para o hostel para decidir se iríamos ou não. 

A Victoria, simpática atendente do hostel, nos disse que achava possível fazer a trilha. Apesar de estar ventando muito, em El Chaltén aquilo não era muito – Victoria nos disse. Então beleza! Fomos para o quarto e comecei a arrumar rapidamente minha mochila. Santi e Gabi estavam acordados já. Sem nenhum cuidado fui jogando tudo na mochila. Comida, roupas que achava necessário, calcei minha bota e minha meia já fedorenta e dura. Pedi a Victoria onde encontraria saco de dormir e isolante térmico, ela falou que na rua que dá acesso ao início da trilha eu encontraria uma loja onde alugavam. Seguindo para a trilha (ainda na cidade) parei na loja e aluguei o que precisava, ou seja, isolante térmico e saco de dormir.
Já no começo da trilha, algumas subidas bastantes íngremes. Escadinhas de pedras com degraus muito altos. Troncos atravessados, e mais pedras. Logo depois de algumas dessas subidas, chegamos numa parte mais plana. Ali vi a diferença de estar caminhando com uma mochila de 75L com todos os equipos para camping, e de estar com uma mochilinha só com água e um casaco (caso doGuilherme). Ele não pretendia acampar no Poincenot, iria fazer a trilha e voltar para Chaltén, porque no dia seguinte iria para El Calafate. Como começamos a trilha meio tarde, o sol começou a ficar forte. Tinha um longo trecho que caminhávamos sob o sol escaldante, e não tinha vento. Eu não via a hora e encontrar uma sombra.
Percebi que caminhando na frente do Guilherme ele se esforçava para andar devagar. Então quando chegamos no primeiro ribeirão, parei para encher minha camel bag e falei à ele que poderia seguir caminhando, que em algum lugar nos encontraríamos. E ele foi. Eu estava preocupado, pois estava caminhando a não mais que uma hora e percebi que respirava já ofegante. Resolvi continuar um pouco mais lento, porém mantendo a velocidade. Nesse sistema eu melhorei, tomando água a cada 10 minutos consegui manter um bom ritmo.

Cheguei numa encruzilhada que não constava no mapa, porém dizia que uma era 10 minutos mais longa que a outra. Nesse instante nem sei de onde apareceu o Guilherme. Deveria estar descansando em alguma sombra. Ele disse que seguiria junto comigo pela trilha longa. Essa trilha nos levou ao mirador do Fitz Roy. Local que tinha uma vista incrível do imponente maciço de granito, Fitz Roy.

Aproveitamos para sentar e descansar. E claro, registrar o horizonte em nossas câmeras.
Continuando a caminhada, passamos pelo acampamento Capri e em seguida chegamos na Laguna Capri, linda! Cheio de árvores em volta, e o lago com um azul indescritível. Dava vontade de dar um mergulho, porém a água era gelada.
Seguimos a trilha, e depois de algum tempo começamos a escutar som de água batendo nas pedras. Depois de um breve declive, chegamos a um vale, onde um rio de águas transparente o cortava. Água gelada e limpa. Peguei mais água e seguimos. Esse trecho da caminhada foi bastante prazeroso. Por diversas vezes eu via corredeiras, passava por pequenas pontes rústicas, e seguia caminhando em uma vegetação bastante fechada, por onde tinha dezenas de trilhas. Era um labirinto, mas qualquer delas acabava na principal. Na continuidade, passamos por um longo trecho alagado, cheio de pequenos lagos. Já estava ventando bastante forte, e caindo uns pingos de chuva.
Não demorou muito para chegarmos no acampamento acampamento Poincenot. Sem perder tempo, procurei um lugar bom e montei minha barraca, Guilherme ficou esperando. Tinham bastantes barracas no acampamento, a maioria do pessoal já tinha ido até a Laguna de Los Tres, e estavam acampados para no dia seguinte retornarem. Depois de montada a barraca, peguei minha mochila de ataque, o casaco, os bastões e a água. Seguimos para o ataque até a Laguna. Sabíamos que essa seria a parte mais difícil e perigosa. Atravessamos dois rios e começamos o trecho mais íngreme de todos, que inicia no acampamento Piedras Blancas (somente alpinistas podem acampar ali).
Já não tinha mais árvores, somente pedras e pedras. A caminhada inicia num ângulo de 30º que não demorou muito para chegar nos 45º.
Conforme eu subia, a sensação térmica diminuía, causada pelo vento. Comecei a reparar que praticamente não tinha mais pessoas subindo, atrás de nós não havia mais ninguém. E muitas pessoas desciam. Quando estávamos caminhando há uns 45 minutos, veio um grupo maior de pessoas. Estavam reclamando muito que estava extremamente frio lá na laguna, e falaram para tomar cuidado com o vento em pontos mais expostos.
Guilherme estava com medo dos ventos, que nos faziam parar em alguns momentos para não cairmos.
Quando chegamos em um platô, vi que realmente estava frio e a chuva já estava mais forte.
Faltavam apenas mais uns 25 metros verticais para subir. Caminhei rápido para não perder calor, deixando o Guilherme um pouco pra trás.
Ao chegar no topo da borda da Laguna de Los Tres, fui apresentado ao vento mais forte que vi na minha vida.
Infelizmente, eu não consegui ver o Fitz Roy de perto. Por um momento fiquei frustrado, mas sei que a montanha continua lá, e um dia vou voltar para vê-la de perto.
Guilherme chegou e comentou que estava com medo do clima lá em cima (e que naquele momento teve certeza que não gosta de grandes sacrifícios para ver uma paisagem). Ele tinha luvas, gorro e eu não. Tentamos tirar algumas fotos mas o vento não nos deixava ficar parados para uma boa foto. A câmera do Guilherme pifou com o frio e a humidade, a minha tava lenta mais funcionava. Tentei tirar fotos ainda por um tempinho enquanto o Guilherme foi se esconder atrás de alguma pedra para se proteger do vento frio e das pedras de gelo. Não suportando mais o frio, fui para um buraco atrás da uma pedra grande para me esquentar um pouco.
Minhas mãos, estavam vermelhas e duras, resolvi então fazer um vídeo para guardar um momento diferente e perigoso na montanha . Depois de feito o vídeo, não demorou muito para a minha câmera também parar de funcionar, devido à baixa temperatura.
Vendo que o vento não diminuía, decidimos voltar ao acampamento Poincenot. Guilherme, estava tenso e estava com pressa de se livrar daquele lugar, eu também queria ir rápido, mas por ter artrite nos joelhos caminhava mais devagar na descida para não ferrar tudo vez. Guilherme sumiu montanha abaixo.
Encontrei um casal subindo, e a linda e simpática garota parou para falar comigo, pediu como estava lá em cima, e se era possível chegar na laguna. Disse à ela que era possível ir até lá em cima, porém tinha que ter bastante cuidado com os ventos e com as pedras misturadas com granizo. Ela agradeceu as informações e continuou. Em determinado momento, começou a ter rajadas de vento fortíssimas, numa delas tive que me segurar em um arbusto e me agachar. Ainda bem que eu estava com os bastões, que foram super importantes nesses lugares mais expostos ao vento. Ainda agachado, esperando o vento diminuir, escutei um grito, um grito feminino desperado! Na hora me arrepiei. Levantei para olhar para cima e ver se tinha alguém caído. Não vi nada, somente algumas pessoas também paradas olhando pra cima. Não se porque, acho que aquele grito foi da moça que me pediu informações lá em cima.
Finalmente mais perto da acampamento Piedras Blancas, onde já não é mais tão inclinado, reencontrei o Guilherme.
Fomos até o acampamento dos alpinistas para um breve descanso e seguimos até o acampamento Poincenot.
No acampamento joguei minha mochila na barraca e me despedi do Guilherme, que ainda retornaria até El Chaltén para no dia seguinte começas seu regresso ao Brasil.
Guilherme que foi um grande companheiro de viagem e me ajudou muito com o espanhol e informações da Argentina (nos conhecemos graças ao site mochileiros.com).
Com fome, fui para a barraca para montar minha cozinha. Miojo, lata de atum, fogareiro e bora cozinhar! Mais uma vez fiquei contente com a eficiência do fogareiro, mesmo com ventos fortes consegui cozinhar sussegado. Desagradável foi as partículas de poeira, folhas e madeira que o vento jogou dentro da panela. Mas tudo bem, acampamento é improviso.
Limpei também um pouco o chão da barraca, que estava cheio de areia e poeira trazidas pelo vento. Até o saco de dormir estava todo sujo de poeira.
Depois de comer, fui até o rio que passava perto do acampamento, para lavar os utensílios de cozinha. Fiquei de cara, o tempo tinha melhorado na Laguna de Los de Los Tres, o Fitz Roy estava totalmente descoberto, somente uma nuvem vertical de vapor subindo de seu cume. Lavei a louça, e me deitei no chão voltado à montanha e fiquei admirando tamanha beleza.
Então voltei para a barraca para escrever no diário e organizar as coisas. Até fiz suco para o dia seguinte. Porque em El Chaltén a água é tão limpa, que praticamente não contém sais minerais, e por isso é importante acrescentar sucos de pacotinho ou sal e água. Pois somente a água de lá não hidrata!
Depois das tarefas do “lar”, fiquei escutando música para não escutar a conversa dos vizinhos de barracas israelenses. Que falavam super alto, riam muito e ainda escutavam música de um microsystem que levaram para o acampamento! Músicas israelenses, claro.
Antes de dormir, ainda prestei atenção ao vento, que estava muito forte e prometia uma noite agitada.
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Glauco
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