Mochilão Patagônia – 17º Dia – A volta pra casa – Brasil


A noite foi calorenta, dormi tenso por saber que deveria acordar cedo. No meio da madrugada tive a impressão de escutar alguém tentando abrir a porta. Esperei, pensei que era o casal de  gays do meu quarto. Como eu tinha trancado a porta, levantei, destranquei e voltei para a cama. Não ouvi mais barulho nenhum.
Acordei eram 05:00 hrs. Levantei as pressas, troquei de roupa, escovei os dentes e arrumei o cabelo. Mochila nas costa, e bora fechar a conta. Passei no balcão para fazer check-out e pedir para que chamassem um táxi.
Deveria ser umas 06:00 hrs quando deixei o hostel. Fiquei esperando o táxi no cruzamento entre a calle Florida com a Av. Corrientes. Assim que o táxi chegou, joguei o mochilão dentro e falei, pisa fundo!
O motorista era um senhor, que diminuía a velocidade e buzinava a cada prostituta que encontrasse pelo caminho, e de manhã bem cedo em Buenos Aires o que não falta é prostituta. Em um sinaleiro, ele até puxou papo com uma profissional que atua nessa área.
Chegando no aeroporto, meio que em cima da hora, fiquei perdido para achar onde eu deveria fazer o check-in. Quando finalmente encontrei, a fila estava grande. Esperei um bom tempo na fila, não tirando o olho do relógio. Eu queria ainda comprar alfojor, bandeira da Argentina, dulce de leche e um perfume que minha irmã pediu.
Com algumas pessoas houve problema com documentação, e isso só piorava meu nervosismo. Tive sorte, minha passagem e documento estavam todos corretos e fui liberado para a sala de embarque.
Eu ainda não havia feito a troca dos pesos que me restaram, por reais. E acabei fazendo no Banco Piano, do lado dos balcões da TAM mesmo, porque não havia mais tempo para ir até o La Nación. Acabei pegando uma taxa de câmbio bem desfavorável, ARG$ 2,54.
Dali corri para passar pela polícia internacional, e mais uma fila me esperava. Era um estresse total aquilo. Muita gente atrasada, moça brasileira chorando por falta de documentos e eu no meio do tumulto. Eu estava na metade da fila e só restavam 10 minutos para o avião decolar. Nesse tempo, ainda conheci uma família de mexicanos. Sinceramente não sei dizer quem era mais linda e elegante, a mãe ou a filha. Estavam voltando para o México e queriam saber se precisavam preencher o formulário de emigração igual ao que eu tinha. Creio que era uma família muito rica, o senhor e seu filho também estavam muito bem vestidos. Se expressavam muito bem e com classe. Assim que entreguei meu formulário e fui liberado para deixar a Argentina, apareceu uma mulher e pediu meu número de vôo. Quando mostrei o bilhete, ela disse que eu deveria ir direto para o avião, que não haveria tempo de passar no Duty Free. Puta que pariu, a dor de estômago veio na hora. Fiquei sem opção, tive que ir pro avião sem fazer as compras mais clássicas da Argentina. Se eu tivesse feito a compra das coisas que queria, teria perco o avião.
Assim que entrei e me acomodei, a porta do avião se fechou e iniciou os preparativos para o vôo.
Esse vôo passou rápido, lembro de poucos acontecimentos. Sem contar que dormi boa parte da viagem.
Cheguei em São Paulo, e me alegrei em ver o Duty Free. Pensei, tomara que pelomenos o perfume da minha irmã eu encontre! E dei sorte, encontrei pelo mesmo preço que ela tinha visto no site do Duty Free de Buenos aires. Comprei também uns chocolates suíços para dar de presente para meus pais. O aeroporto estava mais calmo do que na outra vez em que estive, também, era natal quando embarquei na outra vez.
Tinha sobrado ainda 50 pesos, que na Argentina o cara não tinha trocados em reais para esse valor. Me alegrei em saber que fiz um bom negócio em trocar meus pesos ainda na Argentina. Esses ARG$ 50,00 acabaram virando R$ 18,00! Absurdo a taxa que cobraram!
Resolvi então fazer um lanchinho. Tinha uns chocolates e salgadinhos para comer.
Já sabendo onde era, fui sem problema até os balcões da TAM para fazer o check-in do vôo para Curitiba. Nessa fila conheci duas garotas que estavam de partida para o Nordeste. Muito entusiasmadas, não paravam de falar das baladas que iriam freqüentar. E ficavam cantando uma musiquinha bem de garota baladeira. Tinham comprado um pacote CVC, e estavam felicíssimas com sua primeira viagem de avião, e sem a companhia dos pais. Não pude deixar de reparar nas bagagens delas, tô falando das malas mesmo, deveriam pesar uns 20 kg! Isso que só passariam 7 dias e ainda no Nordeste, onde não é necessário mais do que biquini e e shortinho hehe.
Check-in feito, parti pra sala de embarque. Bom, eu sabia que meu vôo demoraria, e muito (3 hrs) para a hora do meu vôo chegar, porém eu não esperava que ainda atrasasse! A sala de embarque estava lotada, fazia muito calor. Assim que encontrei uma cadeira tratei de cochilar. Acordei com um casal que parecia estarem pesadíssimos. Mais tarde, quando me viram escrevendo no diário, pediram de onde estava vindo, falei que era da Patagônia. Acharam super legal a iniciativa de relatar a viagem e falaram que estavam vindo de Londres. Tinham morado 5 anos lá mas, resolveram voltar. Contaram um pouco sobre os lugares que conheceram lá, e de onde pretendem conhecer ainda na Europa. E realmente, estavam cansados! Já faziam três dias que estavam de aeroporto em aeroporto até chegar em São Paulo. Tiveram muitos vôos cancelados, e até em hotel de última hora tiveram que ficar. E detalhe, estavam viajando com 16  malas enormes. Cada translado significava contratar van para levá-las.
Embarcamos com mais ou menos 30 minutos de atraso. No avião, assim que sentei um homem pediu se eu podia trocar de lugar com sua esposa, porque compraram as passagens em última hora e só conseguiram lugares separados. E como eu estava viajando sozinho, acharam que eu não me importaria. Como não me custava nada mesmo, aceitei trocar de lugar. Eu estava totalmente desgastado de aeroportos, rodoviárias e táxis, acabei pegando no sono antes de darem as instruções de vôo.
Parecia que estava dormindo a horas, estava completamente relaxado. Senti o avião tremendo e um ruído forte. Olhei para a janela e vi que estávamos decolando. Como acordei bastante descansado e aparentemente recuperado do corre e corre de aeroporto, pensei: F*deu! Tô decolando de Curitiba pra Londrina!
Pedi assustado, para garota sentada no assento ao lado se estávamos mesmo decolando de Curitiba.
A garota sorrindo disse que não, nosso avião demorou pra ser liberado pra decolagem, e acabamos ficando a espera da liberação da pista por 45 minutos!
Nossa! Que alívio! – Falei.
Nunca antes 45 minutos foram tão longos. Tive a impressão de me recuperar totalmente do cansaço.
Ainda neste rápido vôo (45 min.) ganhamos alimentação. Rá! Foi uma zuação por parte da TAM! O lanche era um pacotinho de 3 x 5 cm com exatamente 14 amendoinzinhos! Isso mesmo, 14! Eu contei de verdade!
Em duas bocadas se foram.
Cheguei em Curitiba já era final da tarde, resolvi procurar saber dos horários de ônibus com destino à rodoviária. Encontrei um parado, e fui perguntar. O motorista disse que aquele não passaria na rodoviária, mas sim, a duas quadras dela. E a grande vantagem, ao invés de custar R$ 8,00 como o que para dentro da rodoviária, custava só R$ 1,10. Bom, pra quem leu na íntegra o relato Mochilão Patagônia, já sabe qual foi minha escolha.
Pedi ao motora que me desse um toque quando ele pararia o mais próximo da rodoviária. Foram uns 30 minutos de busão. Se tem uma coisa que odeio é pegar ônibus circular com mochilão. É aquele aperto!
Quando ele disse que podia descer, já avistei o terminal, agradeci o motora e desembarquei.
Até a rodoviária foi um pouco tenso, cheio de gente suspeita e tal. Mas cheguei sem problemas.
Na rodoviária comprei passagem para o primeiro ônibus que partiria rumo à Joinville. Esperei 40 minutos e embarquei. Do meu lado, sentou um rapaz que tinha como destino final Brusque. Pediu de onde eu vinha, falei, voltando do fim do mundo. Ele não entendeu muito bem e eu então expliquei por cima, a viagem.
Ainda dentro de Curitiba, houve uma confusão no ônibus, uma moça chorando começou a berrar com o cara que estava sentado do lado dela, e mudou-se para outra poltrona, do outro lado do corredor. Depois de uns 15 minutos a garota começou a berrar com o cara de novo e a chorar, dizendo que ele estava a ameaçando com olhares e palavrões. O pessoal inteiro do ônibus começou a discutir com o cara também e o motorista parou o ônibus. Pediu o que tinha acontecido, ela disse que ele tinha passado a mão nela e que estava a ameaçando. A moça quis então descer do ônibus nesse mesmo local onde estávamos, que não aguentaria dentro do ônibus com aquele cara por perto. O motorista de uns berros com o cara e pediu pra garota seguir viagem na cabine, junto com ele. Depois disso só paramos quando chegamos em Joinville.
Em Joinville já estava escuro, e um clima terrivelmente quente e úmido me esmagou. Sem perder tempo, fui até o caixa da Catarinense e comprei bilhete de ônibus para as 23:00 hrs. Deveria ser em torno de 20:30 hrs naquele momento. Sem opção, sentei pra esperar o tempo passar. Quando sentei vi que o cara que estava no banco era conhecido, perguntei se ele fazia faculdade na Unerj, ele disse que sim, então falei: sabia que te conhecia de algum lugar!
Pedi se ele iria pra Jaraguá do Sul também, ele disse que iria, mas eu vi que o bilhete dele era diferente do meu. Então ele falou que tinha comprado bilhete em outra agência, mas que vendia passagens da Viação Canarinho (que é de Jaraguá). Puts, o ônibus que ele iria pegar partiria as 21:00 hrs! Corri para esse caixa e comprei também um bilhete. Voltei ao caixa da Viação Catarinense e pedi para que a moça cancelasse o o bilhete que eu tinha comprado antes. A atendente era linda de morrer, e estava toda perdida não entendendo como eu tinha encontrado outro ônibus para Jaraguá. Ela falou que eu perderia 8 % do valor da passagem, ou seja, 88 centavos!
Nesse momento chegou um cara todo mal vestido do meu lado e falo:
– E aí cara, é tu que vai receber uma grana de volta do caixa aí, né?
– Não pode me descolar uns trocados? Eu fiquei 8 anos preso, tenho uma filha e faz 3 anos que não vejo ela. Cara, hoje eu quero conseguir dinheiro pra visitar ela nem que eu tenha que bater, roubar ou fazer o que for! Quanto tu pode me dar?!
Então falei:
-Puts cara! Se deu mau! De verdade. Olha minha roupa suja, olha minha mochila, estou vindo dos quintos dos infernos da Argentina e Chile! Minha grana acabou por lá e tive que voltar. Me restaram só esses malditos trocados que não servem pra nada no Brasil!
Então tirei moedas de pesos chilenos e argentinos e joguei no balcão.
-É isso que tenho! Se quer leva! Na minha mochila só tem roupa suja e meia velha!
O cara ficou encarando e saiu sem falar nada.
A atendente estava branca, todos na fila pasmos e em silêncio. Então enfurecido resmunguei: só o que me faltava, depois de tantos quilômetros rodados na Patagônia um tipo desses querer me assustar agora que estou a 45 km de casa!
Os olhos da garota brilharam!
– De onde você vem? – Pediu ela.
– De Ushuaia, Patagônia! – Eu disse.
– Como assim, sozinho?
– Sim, viajei sozinho…
Então resumi rapidamente como que um mochileiro faz pra viajar, sobre as pesquisas, albergues e lugares…
Ela então pediu meu email, e disse que adoraria ver fotos. Passei meu email e corri para pegar o ônibus.
Quando voltei ao local de embarque, encontrei a Samy. Uma velha amiga de ensino médio. Ela sabia que eu iria pra Patagônia, e então quando me viu com aquele baita mochilão veio correndo me abraçar, desejar feliz ano novo e pedir da viagem. Ela estava com seu irmão, ambos vinha de Laguna, litoral sul de Santa Catarina.
Conversamos um pouco e embarcamos.
No assento do meu lado do ônibus, sentou-se um jovem totalmente drogado. Deveria ter fumado uns 10 baseados. Fazia um monte de pergunta pra mim e não entendia as respostas.
Depois de perceber que eu estava de saco cheio resolveu finalmente trocar de poltrona.
Cheguei em Jaraguá do Sul já era passado das 22:00 hrs. Peguei um táxi com a Samy e o irmão dela, e no caminho contei um pouco da viagem. Como a casa deles é 1 km antes da minha, falei pra racharmos a valor do táxi, mas o irmão dela não aceitou e pagou sozinho. Então paguei somente o trecho entre a casa deles e a minha. Cheguei em casa super feliz!
Missão cumprida! Fui e voltei inteiro, sem sofrer com doença, sem perder nenhum bem material, sem me machucar e cheio de fotos e histórias.
Assim que entrei abracei e dei um feliz ano novo para minha irmã e minha mãe. E comecei a mostrar minhas compras. E me aguentei pra não contar os pontos altos da viagem todos naquele momento. Foi um momento inesquecível.


[…]

Depois de um ano planejando, lendo, assistindo, ouvindo sobre a Patagônia, voltei com sucesso de onde sonhei por muito tempo conhecer. Realizei muitos desejos nessa viagem, conheci muitas pessoas que jamais esquecerei. Vivenciei momentos únicos em lugares únicos que me emocionam quando lembro. Senti a liberdade, o desapego, o vento, a chuva, o sol, o frio, como nunca tinha sentido antes. Viajando sozinho tenho a impressão que fico mais sensível a todas essas coisas. Tudo parece mais intenso, tudo parece mais real. Nunca antes eu tinha sentido tanta vontade de viver como quando estive na Patagônia. Espero que um dia eu volte pra lá, quem sabe com uma família, quem sabe para viver um tempo. Quero sentir de novo um pouco de tudo aquilo mais uma vez.

Agradeço profundamente à todos que ajudaram, apoiaram, contribuíram com informações e conselhos. Um forte abraços à todos os mochileiros que conheci nesses dias incríveis. Ao Guilherme que me ajudou muito com o espanhol e com suas dicas de mochileiro veterano. Obrigado à todas as pessoas que me receberam nos albergues e estabelecimentos. Principalmente aos argentinos, que me surpreenderam com sua honestidade e caráter. E claro, não posso deixar de agradecer a todos você que acompanharam todo o longo relato publicado neste blog. Espero que tenham sentido 1% do que senti na Patagônia.
A todos aqueles que diziam que eu estava louco em querer viajar sozinho para um lugar como a Patagônia, sinceramente… eu espero morrer viajando antes de levar uma vida infeliz  e patética como a de vocês!

E que venha a Bolívia e Peru no final de 2011!
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Glauco
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5 Comments

  1. Luciano Bellarmino Reply

    “Foi uma zuação por parte da TAM! O lanche era um pacotinho de 3 x 5 cm com exatamente 14 amendoinzinhos!”

    Lanche da TAM é caidera! Viva a Azul! 😀

  2. Marcelo Kempt Reply

    glauco parabens pelo blog! muito legal o seu relato. sempre quis conhecer a patagonia e agora tenho certeza que escolhi um bom lugar. sou novato nesse lance de mochilão, mas um dia espero ter experiencia pra fazer uma trip como essa!

  3. Glauco Reply

    Obrigado Marcelo!
    Quanto à experiência, fica tranqüilo que com leituras em blogs e no mochileiros.com você pega todas as dicas necessárias.
    Se tiver alguma dúvida é só entrar em contato.

    Abraços

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