Mochilão Monte Roraima – 3º Dia de Trekking – Venezuela

Tocando a parede do
Monte Roraima

Acordei bem cedo, acho que deveria ser 5:30 da manhã. Estava incomodado com o frio e resolvi levantar acampamento. A roupa que eu lavei no dia anterior não secou. Logo percebi a bobeira que tinha feito. Sabia que no topo do Roraima seria ainda mais úmido, portanto essa roupa ficaria por vários dias molhada, sujeita a apodrecer.

Cheguei na barraca cozinha quando os cozinheiros estavam preparando o café da manhã. Lembro que teve mingau com aveia, faltou açúcar e não tinha canela. O pessoal odiou, mas eu não cheguei a achar ruim.
A galera demorou muito até saírem das barracas e arrumarem as suas mochilas. Quando os primeiros ficaram prontos, intimei o guia auxiliar, o Yirso para iniciarmos a caminhada rumo ao topo.
Nesse grupo da frente, andávamos relativamente no mesmo ritmo. Eu era o único que estava carregando absolutamente tudo nas costas. Mas isso não fazia eu ficar para trás. Apenas suava muito mais que os outros. Mais uma vez cometi o erro de começar o trekking sem água. Isso já aconteceu antes no Pico Paraná.
Hermanos argentinos
curtindo o visual

Acho que encontrei água depois de uma hora de caminhada. Essa parada foi sensacional, pois ao lado do córrego, estava a parede do Monte Roraima. Pela primeira vez pude encostar meu queixo numa parede e olhar para cima ter a impressão que a verticalidade vai ao infinito. É uma sensação extraordinária.

Nessa parada eu estava bastante suado, mas em questão de dois minutos senti o vento frio. Sinal que estava ganhando altitude, e que o tempo não estava confiável.
Desse ponto em diante a trilha me pareceu menos cansativa. Claro, já estava fatigado o suficiente para não me sentir mais cansado ainda. Caminhamos mais meia hora até um pequeno platô. Lá encontrei novamente a Valerie, a linda “venezuelana dourada”. Conversamos um pouco enquanto nossos grupos descansavam. O Yirso, demonstrando confiar em mim, deixou-me seguir caminhando a frente de meu grupo. Pediu para esperar todos quando chegasse próximo ao Passo de Lágrimas, explicou como era o relevo para que eu soubesse onde deveria esperar. Segui sozinho, sem ninguém na minha frente, no meu ritmo e falando sozinho.
Um outro mundo

Sinto-me muito mais a vontade quando caminho só. Acho que meu desempenho até melhora. Quando cheguei nesse no local onde o Yirso me informou que deveria esperar o grupo, vi o Passo de Lágrimas. Uma cachoeira, de gotas de água – não chega ser uma língua d’água – onde a trilha passa por baixo! Ou seja, você cruza a cachoeira de mochila, seguindo a trilha. Logo chegou a venezuelana (eu não sabia que ela se chamava Valerie). Comecei a colocar meu anorak, para evitar que mais coisas molhassem. Meu anorak é vermelho, quando Valerie pegou o poncho dela, vi que tem era vermelho. Brincando a chamei de “Caperucita Roja”, Chapéuzinho Vermelho, em Espanhol. Ela gostou do apelido e fez que questão de me chamar assim também.

Brumas cobrindo elevações

Após boa parte de meu grupo chegar, começamos essa parte final de ascensão ao Monte Roraima. Descemos uns 30 m, passamos pelo Passo de Lágrimas e então iniciamos uma subida de 300m a 70º de inclinação. É um trecho um pouco perigoso, pois andamos sobre pedras soltas que se deslocam o tempo todo. É molhado e escorregadio. O grande perigo é torcer o pé. E como vi alguns trekkers retornando mancando com o pé machucado, tive ainda mais cuidado.

Já no começo, Yirso me deixou seguir na frente, disse que era para eu ter cuidado, e que estava me liberando para eu poder seguir caminhado sozinho até chegar o topo. Fiquei felicíssimo! Sem dificuldade fui subindo e me distanciando de todos. Inclusive ultrapassei trekkers de outros grupos. Na parte final, quando vi que faltavam apenas alguns metros verticais para chegar ao topo, deixei de sentir dores, cansaço. Uma alegria e energia enorme tomaram conta de mim. Encontrei a Valerie, tiramos fotos, e depois resolvi fazer um lanche e esperar o restante do grupo.
O clima do topo do Roraima é surreal. Deitado, fiquei admirando a formação das rochas. Por todos os lados vêem-se figuras que lembram pessoas, carros, animais, dinossauros. O clima de montanha também me agradava, sol forte, que queimava muito e um vento frio de atingir os ossos.
Formações curiosas estão
por toda parte

A espera por todos meus companheiros de equipe foi tediosa. Na verdade considero que foi um erro de logística. Penso que deveriam ter deixado quem já estava no topo, ir para o acampamento com os carregadores. Pois o nosso acampamento estava ainda a 45 min de caminhada.

Levou quase uma hora para todos chegarem, e quando chegaram eu estava com meus músculos doendo. Retomar a caminhada foi desgastante e sofrido. Valerie seguiu para outro lado, o grupo dela iria ficar em outro acampamento –  como são chamados os locais onde são montados os acampamentos, nas cavernas!
A caminhada até o acampamento foi difícil pra mim. E um desânimo gigantesco começou a me tomar quando comecei a sentir minha artrite no joelho direito.
O que eu mais temia aconteceu em seguida. Ao chegar a nosso acampamento, o Guacharo, estava lotado de barracas. Esses acampamentos no Monte Roraima são em cavernas, e recebem o apelido de hotel. Ou seja, o nosso era o hotel Guacharo. As barracas de meus companheiros já tinham sido montadas. Isso era algo que eu sempre cuidava, chegar antes que os carregadores para pegar bons locais para acampar. Mas como tive de esperar o grupo, nesse dia me dei mal. Sobrou um local fora das cavernas, numa curva estreita onde ventava constantemente. Para piorar, não coube bem certo minha barraca e parte da frente dela ficou fora do piso, “no ar”. Logo percebi o que viria pela frente. Diferente da galera que havia acampado dentro das cavernas, eu estaria sujeito aos ventos, neblina e frio. Ao acabar de montar minha barraca, falei para o pessoal: – Essa noite vou passar frio igual a cachorro de rua!
Organizei minhas coisas na barraca, e depois fui caminhar em torno do nosso hotel. Junto com a galera, andamos por quase uma hora. Batendo foto e curtindo aquele clima fantástico. Ora a cerração tomava conta de tudo, ora era o sol que dava o ar de sua graça.
Literalmente sentado no abismo

O jantar foi farto nesse dia, não lembro o que era, mas sei que após comer não demorei para ir dormir. Se por um lado minha barraca tinha ficado longe das cavernas, por outro tinha ficado perto do paredão. A não mais que 25 m. Saber que existia um mundo diferente a 25m ao lado e 700m abaixo, é engraçado. Eu estava num mundo perdido, no mundo topo do Roraima.

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Glauco
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