Mochilão Monte Roraima – 4° Dia de trekking – Venezuela

A noite foi um inferno para dormir. Exatamente o que pensei antes de me deitar aconteceu. O vento soprava forte contra a minha barraca, por estar localizada na parte final de um corredor de rochas, onde o vento afunila. O vento trazia muita umidade, que é elevadíssima no topo do Monte Roraima. Eu estava com quase toda roupa que tinha, apenas o nariz fora do saco de dormir e tremia muito! Meu nariz parecia que iria quebrar de frio. Como a parte da frente da barraca ficou afastada do chão, por conta da falta de espaço, o vento entrava por baixo do sobre-teto. E que vento constante!
Sei que fiquei resmungando a noite toda e torcendo pelo o sol nascer logo. Levantei mal humorado e muito cansado! Mas tratei de me animar e tentar interagir com a galera. Durante o café da manhã comi bem, pois tinha pela frente 24 quilômetros de caminhada! A dor da artrite em meu quadril parecia ter sumido.
Preparei a mochila apenas com itens necessários para essa caminhada, levando somente o necessário. Caminhava tentando pisar ao máximo em partes planas, para evitar que a artrite piorasse. Mas não demorou muito para sentir que além da dor no quadril, o meu joelho esquerdo começava a dar sinais de artrite.
Poxa, um desânimo começou a tomar conta de mim!
Eu sabia que demora dias para essas dores passarem, e que pode chegar a um ponto em que não consigo mais andar. Tentei continuar com o pessoal sem me excluir ou ficar cabisbaixo. Tirei fotos da Elaine e do Antonio de vez em quando, pois a câmera deles ficou sem bateria. Ao mesmo tempo cuidava para a bateria da minha também não se esgotar.
Essa caminhada pelo topo do Roraima foi interessante. As pedras tem as mais variadas formas, muitas plantas exóticas e bromélias.
Acho que uma das partes mais interessantes é o vale dos cristais. Eu nunca tinha visto coisa igual! Os cristais brotando do chão, como se fossem plantas. Alguns até bem grandes. Um pecado, sentia-me mal caminhando com a possibilidade de quebrar algum cristal. Deveria ter um local delimitado por onde caminhar. Há que ter cuidado e consciência.
Após o vale dos cristais, chegamos ao marco da divisa. Não gosto de marcos em montanha. Esse está localizado exatamente na tríplice fronteira: Brasil, Guiana, Venezuela.

Paramos ali para descansar um pouco e fazer fotografias, por sorte o tempo estava bom! Após essa parada seguimos até o fosso. Eu nunca tinha visto fotos desse fosso, e me impressionou muito! Não é apenas um fosso. Ele tem corredores, colunas e a água era bem transparente! A altura da borda até a água deve ter uns 5 metros. Já a profundidade até o fundo, não fomos informados. Os argentinos que estavam no local estavam saltando na água, que por sinal deveria estar abaixo dos 18°C. O pessoal do meu grupo foi com o guia Leo caminhar por algumas fendas que dão acesso à parte interna do fosso. Infelizmente essa eu perdi. Estava com muitas dores no quadril e joelhos. Resolvi ficar descansando e evitar que minha artrite piorasse. Nossos cozinheiros trouxeram o almoço. Uma macarronada, bem farta!
No retorno ao nosso acampamento, segui caminhando com o Yirso. Embora eu estivesse com dor, consegui caminhar num ritmo legal, sem fazer muitas pausas.
Chegamos ao acampamento por volta das 15:00 hrs. Eu tratei de arrumar minha barraca, tomar remédio e comer o que restava de granola. Saí para fazer umas fotos também, ao redor do acampamento. Há uns 150 m de nosso acampamento, fiz um totem de meio metro sobre uma elevação rochosa, bem próxima do abismo.

O sol estava baixo, se pondo, alguns amigos estavam dormindo, outros na cozinha do acampamento, que ficava próxima à barraca da maioria das pessoas, exceto da minha barraca. Quando fui à borda do cânion, vi a beleza que é o sol se pondo, ao fundo, todo o vale. Eu estava só. Num silêncio profundo e sem vento algum, sentei-me na borda do Tepui, abaixo de mim, 700m verticais. De repente algo passa próximo à minha cabeça e cai no vazio. Fazendo um barulho. Com o susto olhei ao redor para ver se alguém tinha jogado algo. Com receio me afastei da borda e fiquei observando. Percebi que eram pássaros, que brigando (ou brincando) se atacavam e despencavam Tepui abaixo, bem próximo à parede.

Vi de longe o Antonio e chamei ele para ver a paisagem que estava linda, ele aproveitou para chamar a Elaine. Foi um dos mais belos pôr do sol que já vi. Infelizmente eu tinha adquirido pouquíssima habilidade com minha câmera DSLR, e não consegui registrar de maneira muito realista o que estava vendo, menos ainda o que estava sentindo. Assim como na Patagônia, eu sabia que tinha que absorver o máximo daquele momento. Os sons, o vento, o frio, o sol no horizonte, os pássaros rasgando o vazio, as pequeninas flores entre as rochas, a cor do horizonte num verde-amarelado do vale 700m abaixo.
Fomos os três únicos a conseguir ver esse momento mágico e encantador. Eu sabia que era um momento especial, e que talvez no próximo dia não ocorresse (e assim aconteceu).
À noite, comemoramos o ano novo, no horário do Brasil. Essa comemoração fizemos em nosso acampamento, junto com trekkers do acampamento vizinho. Estava frio e úmido, no céu podíamos, às vezes, ver estrelas. Desejamos uns aos outros muitas felicidades e calorosos abraços. Imaginem só! Passar o réveillon em uma caverna, no topo Monte Roraima, com pessoas que assim como eu amam montanhas, naturezas e desafios! Foi um momento inesquecível!
Nessa troca de cumprimentos, um a um desejei feliz “año nuevo” aos índios de nosso grupo. Percebi a alegria de não terem sido esquecidos, no caloroso aperto de mãos e em suas faces sorridentes e olhos brilhantes.
Para dormir, o Antonio me emprestou um saco de dormir de emergência, daqueles aluminizados. Coloquei tudo o que eu tinha de roupa – limpas e sujas – entrei dentro do saco de emergência e vesti por fora o saco de dormir normal. O vento cortava o interior da barraca de ponta a ponta, mas eu estava numa temperatura agradável. Peguei no sono rápido, estava aquecido, cansado e feliz. O dia seguinte seria o último no topo do Roraima.

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Glauco
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