Mochilão Monte Roraima – 7º dia de trekking

Acordamos no último dia do trekking com sol novamente, inacreditavelmente não pegamos chuva em nenhum dos dias, muita sorte. Guardei a barraca toda molhada de sereno na mochila, estava bem mais pesada. Olhando para os tepuis ao nosso redor, eu já sentia saudades. Comecei o retorno na companhia do Ralf. Seguíamos sem pressa, volta e meia olhando para trás para agraciar nossos olhos com os últimos momentos de uma paisagem surreal.
Nesse último dia a galera estava já mais cansada, de todos os grupos. Muitas botas estavam cheias de silver tape. Inclusive muitas Salomon! Minha guerreira e amada bota Nômade Titã Kevlar continuava intacta!
O sol estava forte nesse dia, e a falta de vento era agoniante. Na parte final antes de chegar à aldeia dos índios, resolvi cortar caminho por entre a mata, para não fazer um grande balão pela trilha. Não foi a melhor das alternativas, o terreno era bem acidentado, mato alto e ainda um córrego para atravessar, porém economizei 5 minutos de caminhada. Posteriormente fiquei sabendo que uma pessoa na semana anterior tinha sido picada por uma cobra nessa mesmo caminho que utilizei.
Fui o primeiro a chegar à aldeia, assim como fui o primeiro ao chegar ao topo do Roraima. Esse fato me deixou feliz, porque não caminhei com o objetivo de chegar na frente, caminhei em meu ritmo normal. E ser o primeiro sendo que eu era o único a levar sempre todo meu equipamento na mochila fez eu me sentir tipo um Rambo! haha
Chegando na aldeia, fui vistoriado por fiscais indígenas – um procedimento obrigatório. Fazem essa vistoria com intuito de averiguar se não estamos levando pedras, plantas ou qualquer coisa do Monte Roraima. Depois dessa vistoria, fui pesar a mochila. Foi até então o trekking com o maior peso na mochila, 14,5 kg! Equipamento completo para 7 dias de trekking, incluindo a câmera DSLR que pesa um quilo e um tripé de 1,5 m de altura!
Joguei a mochila num canto e parti pra cerveja, paguei cerveja para oYirso, o guia auxiliar e o motorista de nosso 4×4. Foram muitas cervejas! Sentei-me na mesa com a família venezuelana que eu havia conhecido. Lindas, lindas venezuelanas! Fui convidado a ficar na casa deles quando eu voltar para a Venezuela, e eu vou voltar, sem dúvidas!
Pedi para essa família se sabiam o nome da garota venezuelana que eu havia conhecido nos primeiros dias do trekking. Me falaram que era Valerie. Fui então até o guarda que faz os registros dos trekkers que ingressam na trilha, queria saber qual é o sobrenome dela.
Peguei uma lista enorme de Valerie`s que entraram no parque desde o dia que ingressei. De todas elas anotei a cidade e idade. Eu tinha que encontrar o contato dela. (três meses depois de voltar para casa encontrei o perfil dela no facebook, haha)
Já meio alegre, embarquei com meu grupo de trekking no 4×4 para voltarmos para Santa Elena de Uairén. Uma hora de viagem naquele chacoalha infernal, o motorista estava andando super rápido e perigosamente. Não preciso dizer que não havia cintos de segurança. Acho que paguei cerveja demais para o motorista haha. Ele estava empolgado!

Acabamos indo para outra cidade que nem lembro o nome, mas tínhamos que esperar o 4×4 voltar até a aldeia e buscar o Leo, nosso guia principal. Ficamos umas duas horas ali esperando. Aproveitamos para comprar artesanato. Dei um furo nesse momento. Ainda sob efeito do álcool, pedi para uma vendedora se havia bandeira bordada da Colômbia! O Antônio então me advertiu: – Tá maluco, é Venezuela aqui!

A mulher me olhou com uma cara brava e não respondeu. Que vergonha, eu não sabia onde me esconder!
Voltamos para Santa Elena de Uairén, almoçamos em uma churrascaria de um brasileiro. Na verdade quase não havia mais comida, muito menos carne! Deu uma grande confusão, uma família venezuelana pedia carne o tempo todo do espeto corrido, e de repente, começaram a reclamar todos juntos, levantaram e foram embora pagando um valor irrisório. Óbvio, haviam comido um monte, e depois de satisfeitos criaram caso para não pagar o valor integral. O dono do restaurante continuou nos servindo como podia, com os olhos cheios de lágrimas.
Partimos para o Brasil. Fizemos câmbio na fronteira e então voltamos a enfrentar a ridícula rodovia até Boa Vista, rodovia esta que o governo federal gasta dinheiro com placas com os dizeres: “Cuidado, buracos na pista”. Nem precisa de aduana para saber que você voltou ao Brasil, quando vê uma placa dessas.
Quase chegando a Boa Vista, vi talvez o mais lindo pôr do sol da minha vida. Realmente a proximidade com a linha do equador faz com que o nascer e pôr do sol sejam muito mais lindos. O céu ficou num tom alaranjado tão intenso que é impossível explicar a energia que positiva que sentíamos com tamanha beleza.
Chegamos à noite em Boa Vista, tínhamos que tomar um banho rápido, jantar e partir para o aeroporto.
Assim que cheguei ao hotel, fui ligar  o celular no carregador, afinal eu estava há 7 dias sem usá-lo, e queria dar feliz ano novo para meus familiares.
Assim que o celular ligou e eu li a primeira mensagem, fiquei chocado. Meu avô materno havia falecido e já sepultado. Fiquei incrédulo, sem ação. Foi o primeiro dos meus avós a falecer. Imediatamente lembrei que meu pai falou para eu visitá-lo antes da viagem, mas na correria do final de semestre e do trabalho, acabei não conseguindo ir. Ele estava com saúde até eu partir. Liguei para minha família e conversei um pouco. Estava confuso.
Eu tinha que ir jantar com o pessoal. Fomos então para uma pizzaria, eu não comentei nada com eles. Mas perceberam que meu humor havia mudado.
Tivemos que comer super rápido para não perder o nosso voo, que partiria 01:00 hr. então faltando 15 min para meia noite, os que tinham voo, se despediram com um forte abraço com cada um que não iria viajar naquele dia. Pessoal que deixou saudades, todos, todos muito gente boa!
Pegamos um táxi e partimos para o hotel, para pegar as mochilas e com a van da agência ir para o aeroporto. Na van, eu disse ao Antonio e Eliane do falecimento do meu avô. falei para ela: – Te disse que derrubar minha pedrinha do totem me traria azar! (Ela acho que levou isso a sério e na primeira trilha que fez ao voltar para o Brasil, fez um totem e me comunicou)
Eu planejava ir para a Ilha do Mel, depois de chegar em Curitiba, mas claro, cancelei essa parte do roteiro. Ilha do Mel me dá medo só de falar. Outra vez que tentei ir pra lá, quase naufraguei e acabei parando em outra ilha. Parece que a ilha é proibida pra mim mesmo.
Meus companheiros de trekking que estavam no meu voo, ficaram em Brasília. Me despedi deles e peguei meu voo de Brasília para Curitiba. Um fato curioso aconteceu. Sem saber a quanto tempo estava viajando, avistei um conjunto de montanhas bem longe no horizonte. Analisei a quantidade de cumes e a posição deles e deduzi que era o Pico Paraná. Ao chegar mais perto não tive mais dúvidas, era o esplendoroso PP. Logo depois pousei em Curitiba. Peguei então um ônibus para a rodoviária e de lá para Joinville. Em Joinville minha mãe, irmã e cunhado me esperavam.
Tristeza e alegria, esse ano, não pude dar um feliz ano novo para minha mãe.
A perda de um ente querido enquanto eu estava viajando foi um acontecimento que eu jamais esperava que um dia pudesse acontecer. Sempre achamos que essas coisas não vão acontecer conosco, na verdade torcemos para que não aconteçam. Mas é o risco que corro viajando para lugares remotos todos os anos. Serviu como um alerta.
A viagem acabou com uma mistura de sentimentos inexplicáveis. Mas a viagem, foi maravilhosa!
Obrigado Revista Go Outside!

Decidi nessa viagem que ao voltar para o Brasil, me tornaria vegetariano. Foi uma decisão de que a cada ano, algo eu tenho que mudar drasticamente. Desde então, não como mais carnes.

Logo após retornar da viagem, escrevi um artigo que foi postado no blog da revista, disponível neste link.
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www.mochilandosemfronteiras.com
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Glauco
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