De Mochileiro a Velejador

Não é novidade para quem me segue, sempre fui um apaixonado por literatura de viagem. Me inspirei muito em pessoas que planejavam e executavam grandes feitos nesse sentido, como navegações ao redor do globo, exploração polar, escalada de alta montanha ou viagens terrestres alternativas.

Minha vida com relação ao mundo outdoor foi baseada nos conceitos e estilo dessas pessoas. Gosto de projetar meus equipamentos e usá-los em campo. Isso vai desde um skate longboard que projetei e fabriquei todas as peças, passando por uma parede de escalada que desenvolvi até método de fabricar as agarras ou um piolet que desenvolvi e também fabriquei, utilizando-o para escalar uma montanha com mais de 6 mil metros, na Cordilheira dos Andes.

Fizeram parte da minha jornada pelo mundo dos esportes outdoor, extreme kayak, longboarding, bodyboarding, escalada em rocha e gelo, trekking, mountain bike e slackline. Então no início de 2019 após quebrar o pé, eu decidi que começaria a velejar!

Sem nunca ter posto o pé em um veleiro, comecei a ler quais os modelos de veleiros monotipo que seriam adequados. Tentei conciliar entre um que pudesse velejar com mais um tripulante, mas que possibilitasse eu colocar na água e velejar sozinho também. Encontrei então um Holder 12 da década de 80, vermelho, lindo! Esse veleiro possui 12 pés (3,66 m), pesa algo como 60 kg e tem capacidade para duas pessoas. Comprei antes mesmo de ter carreta rodoviária para ele. Mais ou menos um mês depois, comprei uma carreta rodoviária de motocicleta, que “picotei” inteira, e passei de 2 metros de comprimento para 4 metros! Fiz tudo em casa, projetei no software 3D, serrei os tubos, soldei, fiz reforços, passei anti-ferrugem, tinta fundo, e pintura final. Também fiz o berço de madeira revestido de espuma para acomodar o veleiro, evitando pontos de estresse para o casco. De fato, eu nunca escolho o caminho mais simples.

O curso de vela seria de 20 horas, mas eu já havia lido muito sobre veleiro, sou autodidata. Então fiz 3 horas de vela com instrutor e a partir daí, segui velejando e aprendendo sozinho. É importante lembrar que eu tinha equilíbrio proveniente do kayak extreme, conhecimento de mar do bodyboarding e noção climática do montanhismo. Dessa forma, “só” precisei aprender a montar o veleiro e manusear os cabos.

O local onde comecei a velejar, foi na enseada de São Francisco do Sul. Como o nome diz, é uma enseada, portanto mar abrigado. Nesse primeiro dia, aprendi quais os nós que deveria saber e onde utilizá-los. Também foi me ensinado a montar o veleiro, ainda que de forma precária, porque faltavam algumas ferragens.

Iniciamos a navegação, e nesse primeiro momento fui só de tripulante. O professor fez duas ou três cambadas (mudar a posição do veleiro e o lado que a vela recebe o vento, velejando contra o vento), e então passou para eu comandar a vela. Ou seja, assumi a posição de “proeiro”. Velejamos algum tempo nessa configuração, fizemos várias cambadas, e velejamos em todas as posições, de contra vento (+- 45° em relação ao vento), de través (vento incidindo lateralmente no veleiro), vento de alheta (+- 45º vindo por trás do veleiro) e por fim, vento de popa, que literalmente empurra o veleiro para frente.

Como tudo ocorria bem, assumi também o leme, passando eu a comandar o veleiro sozinho, e meu instrutor passou a ser apenas tripulante. Então fizemos novamente a navegação com todas as posições do veleiro em relação ao vento. Aprendi a cambar, dar o jibe (mudar a posição do veleiro e o lado que a vela recebe o vendo, velejando a favor do vento) e manusear a bolina. 

Pretendo seguir escrevendo sobre minha experiência na vela. Dessa primeira velejada pra cá, já aconteceu muitas coisas, sustos, erros, invasão de ilha militar e capotes! Abaixo um curto vídeo dessa primeira velejada.


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