Mochilão América do Sul – Dia 15 – Trekking Salkantay, Machu Picchu – Peru


 Acordaram-me as 04:00 hs. Eu tentava entender onde estava e o que estava acontecendo. Glen e Romain insistiam para eu levantar e arrumar a mochila. Era hora de partir rumo ao objetivo final do trekking, Machu Picchu! Levantei ainda cambaleando, estava completamente bêbado ainda. Sem conseguir nem ver direito – afinal, tudo girava alucinadamente na minha concepção – joguei tudo que tava espalhado sobre a cama dentro da mochila, peguei a sacolinha com a água e os snacks, meu mochilão e desci para a recepção do albergue. Parte do grupo do trekking subiria de Águas Calientes a Machu Picchu de ônibus. Como o valor era um absurdo, eu tinha decidiu ir caminhando, subindo as escadarias até M.P. Então eu, Romain, Glen e Dina partimos as 04:00 hs rumo às escadarias. Estava escuro e um pouco frio. Eles aparentemente caminhavam muito rápido, eu seguia atrás tentando acompanhá-los. Quando cheguei às escadarias eu já estava sem fôlego, não sei se realmente caminhavam rápido ou eu ainda estava muito bêbado. Acho que os primeiros dez minutos subindo a escada de pedra totalmente irregular, eu ainda consegui caminhar com eles. Vi que não iria agüentar naquela velocidade e disse para continuarem sem mim. Eu iria seguir caminhando no meu tempo. Em meia hora a única garrafa de água de 500 ml que eu tinha levado para passar o dia inteiro acabou. Com uma ressaca feroz, eu salivava pensando em água. Começaram então a me ultrapassar outros mochileiros. Viam que eu estava exausto, e pediam se eu estava passando mau. Eu era honesto e dizia a verdade, eram os efeitos causados pelo porre de Pisco da noite passada. O pessoal ria, me ultrapassavam e continuavam a caminhada. Houve momentos em que fiquei realmente mau. Comi tudo que tinha de lanche naquela sacola. A sede era absurda. Vomitei algumas vezes.

Cada vez mais mochileiros me ultrapassavam. Alguns ficavam realmente surpresos e perguntavam: – Como pôde encher a cara na noite anterior, você não sabia que teria que subir 2500 degraus hoje? Eu respondia com um sorriso amarelo: – Sim, eu sabia mas queria comemorar! Eu praticamente subia de quatro aqueles malditos degraus. Machu Picchu nunca me pareceu tão distante como naquele momento. De repente, após mais um lance de escadas, encontro uma multidão. Sem entender direito muitos aplaudem e gritam algo como: -Você conseguiu! É isso aí Machu Pisco! Eu não queria acreditar, tinha chego à entrada da Cidade Inca! Mirian rapidamente me pegou pelos braços e mandou-me passar pela cancela. Queria que eu entrasse logo na cidade para encontrá-la livre dos turistas. Passei pela cancela sem encontrar o restante do meu grupo, Mirian tava guiando para uns turistas e me levou com eles até o local de onde se tira a foto clássica de Machu Picchu. Eu não sabia se ria ou se chorava. Eu estava num estado de euforia e cansaço como nunca antes. Fiz um vídeo comemorando a chegada, ainda visivelmente bêbado. Pedi a um gringo com chapéu de cowboy tirar uma foto minha, a foto clássica de M.P. e o Huayna Picchu ao fundo.

Depois de fotografado, avistei aquele grupo de brasileiras que tinha conhecido no hostel em La Paz. Berrei chamando-as, elas não me reconheceram, porque em La Paz eu sempre estava com a toca Inca, e em M.P. estava sem. [Escrevendo este relato estou suando ao lembrar dessas cenas!] Seguimos então com a Mirian para receber as explicações sobre Machu Picchu. Reunimos o grupo a andamos pela cidade de pedra. Mirian explicou de uma maneira bem resumida, mas eficiente como viviam os Incas e como a cidade era administrada.  Lá pelas 09:30 hs, Mirian encerrou seu papel de guia. Tiramos uma foto do grupo reunido, juntamos uma gorjeta para ela. Dei 4 dólares. Estávamos livres para caminhar por Machu Picchu sozinhos. Passeamos pelos diversos setores da cidade. Pedras perfeitamente encaixadas deixam qualquer um impressionado. A divisão dos cômodos, e estrutura para o segundo piso. As salas onde qualquer som é multiplicado umas dez vezes. Caminhando pela cidade de pedra temos a vontade de vê-la em funcionamento, como deveria ser a uns 200 anos atrás. É incrível ver e evolução que passou esse povo. Surgindo com os Tiwanacotas, que lapidavam relativamente bem as pedras, passando pelos Quecchuas, e finalmente os Incas. Esses que foram os mais avançados indígenas da América do Sul.

Machu Picchu é dividida em setores, tem o setor agrícola, dos criados, e a parte nobre, dos mandantes. Havia escolas femininas e masculinas. Sistema de irrigação que funciona ainda nos dias de hoje. Enfim, uma complexa cidade de mais de 500 anos. E me diz, para quê que eles deveriam ter escrita? Se funcionava tudo tão bem sem ela?! Essa, é considerada umas das grandes vantagens da colonização espanhola do ponto de vista dos peruanos. Para eu continua sendo uma grande besteira. Depois de muito caminhar e registrar em fotografias o lugar, resolvemos subir o Huayna Picchu. Huayna Picchu para quem não sabe é aquela montanha ao fundo de Machu Picchu. Para subir tem que comprar um bilhete especial, pois o número de visitantes é restrito. Sentado em frente à portaria esperando para subir o Huayna, muitos turistas passavam e perguntavam: “- Como estás Machu Pisco?!” Eu tinha ficado conhecido pela façanha de subir aquelas escadas cambaleando.

Conversando com um mexicano, disse como tinha sido os últimos 4 dias, e a besteira do porre da noite anterior. Pedi a ele se ele tinha comprado a garrafa de água que tinha pego na mochila, em M.P. Ele disse que não havia para vender ali. Vendo eu naquele estado, ofereceu a garrafa pra mim. Tomei uns goles e quando fui devolver, ele não aceitou, disse que era minha. Eu não sabia como agradecer. Essa garrafinha de água foi um belo presente naquele momento. Liberada a entrada, segui sozinho. A subida do Huayna Picchu é bastante íngreme, escadarias com degraus muito estreitos e altos. Há um local onde é necessário usar corda fixa para subir, usando-a como corrimão. Se tiver medo de subir nem vá, porque a descida sim que dá medo. Mas bem, continuando. No caminho há umas ruínas, assim como no cume. É um lugar bonito, nesse momento até mais tranqüilo que Machu Picchu, que se torna um pandemônio a partir das 10:00 hs. Fiquei um bom tempo sobre umas pedras ponte agudas no cume. Havia umas 30 pessoas lá. Andando de pedra em pedra com um precipício logo abaixo de nossos pés. Eu queria ter visto M.P. de lá antes da chegada dos turistas convencionais. A visão do cume é gratificante.

Montanhas bonitas em volta, um profundo vale com o rio Urubamba bombando e mostrando sua força impressionante. Eu estava impressionado como o clima tinha mudado naquele dia. Chovia a dias na região, e na data que subi à M.P. o dia estava lindo, sol, um ar úmido e refrescante da densa floresta. Ao iniciar a descida percebi o quanto íngreme eram as escadas. Eu estava com fome e cansado. Minhas pernas tremiam. Definitivamente é o último lugar que você deve ir de ressaca. Se tinha alguém com potencial para cair daquele lugar, era eu! Controlando o medo fui descendo devagar. Onde não havia nada para se segurar, sentia minhas mãos molhadas de suor não aderindo às pedras. Começou a ventar um pouco, e nuvens a passar. Desci o mais rápido que pude, porque se chovesse e eu estivesse lá em cima, eu literalmente estaria na merda.

Cheguei à portaria do Huayna e encontrei Romain.

Decidimos voltar para Águas Calientes, M.P. estava abarrotada de turistas. Daqueles mais filho puta possíveis. Esbarram em você o tempo todo, gritam para tirar fotos, crianças chorando incessantemente, enfim, um colorido terrível onde deveria ser somente verde da mata e do gramado, com o cinza das pedras. Começou a chover, e Romain e eu saímos de Machu Picchu. Eu temia o reencontro com as escadas. E agora, em meu estado normal, vi a loucura que tinha feito. Foi extremamente extenuante a descida. Minhas pernas tremiam já não mais suportando meu peso. Eu tinha fome e sede, meu joelho doía. Romain descia com mais facilidade, e eu seguindo-o com as pernas bambas escadarias abaixo. Levamos uma hora e pouco para chegar a Águas Calientes. Paramos numa quitanda para beber uma Inka Cola. Eu estava completamente esgotado. De repente, depois de alguns minutos sem nenhum de nós dizer nada, olho para Romain e digo: “- Romain, completamos o trekking!”.

Ele sorri e comemoramos. Somente eu, Glen, Dina e Romain fizemos o trekking inteiro sem usar cavalos ou outro meio de transporte. Até mesmo a Mirian – nossa guia – pegou uma carona no primeiro dia do trekking. Ou seja, somente nós quatro, de um grupo de 12 pessoas, caminhamos todo o percurso de 5 dias. Uma coisa que Romain disse e tenho que colocar aqui: “Como é triste voltar a civilização atual, e perceber que retrocedemos. Em M.P. era tudo tão organizado, bem feito, planejado. Olha onde estamos, olha que inferno de cidade!”. Ele tinha total razão, Águas Calientes é feia, extremamente turística, casas empilhadas uma em cima de outra. Não se compara nossas cidades com a perfeição de Machu Picchu. Depois de um pequeno descanso nessa quitanda, seguimos para o hostel. Lá estava o restante do grupo. Conversamos sobre a experiência única de pisar em Machu Picchu. O pessoal já tinha pegado o ticket do trem para voltar para Ollantaytambo. Faltava somente eu e Romain pegarmos os nossos. Fomos almoçar no mercado público e depois até o restaurante, onde nossa agência deixa os tickets. O meu e do Romain não estavam. Pediram para nós pegar as 17:00 hs.

Voltamos no horário combinado, e para minha surpresa, só tinha o ticket do Romain e de mais um cara. O meu não estava lá. Fiquei puto, peguei o telefone da agência (Mollepata) em que eu tinha comprado o pacote do trekking e falei com o cara, exigindo que ele disponibilizasse meu ticket, pois logo mais o trem partia e eu não tinha mais grana. Ele falou para ir a outro restaurante ver se estava lá. Fiz isso, acompanhado de Romain. Nesse outro restaurante também não estava. Liguei novamente para agência. O cara desligou na minha cara. Liguei então no celular dele, ele estupidamente disse que eu deveria então pegar o ticket que estava com o nome de outro cara. Xinguei o filha da puta até ele desligar na minha cara. Voltei ao restaurante, e peguei o ticket que não estava com meu nome. Segui até o hostel correndo, peguei minha mochila e junto com o restante da galera fomos para a estação de trem. Na estação entreguei minha identidade e pedi para a garota checar se havia reserva no meu nome. Não havia nada! Eu estava suando frio, morrendo de medo dos guardas pedirem a identidade para conferir com o ticket. Pela primeira portaria consegui passar. Lá dentro encontrei as meninas de BH. Elas pediram o porquê de eu estar com aquela expressão. Contei o acontecido.
Elas falaram que para vir de Ollantaytambo para A.C. Os guardas pediram o passaporte delas. Óbvio que fiquei ainda mais nervoso. Deu o sinal para embarcar. O ticket de todo mundo informava que não iriam no mesmo vagão que eu. Olhei meu vagão, respirei fundo e fui rumo à porta. Mostrei meu ticket me contorcendo reclamando do peso da mochila, na tentativa de fazer o guarda esquecer-se da sua missão de conferir o ticket com o documento. Ele liberou minha entrada sem conferir.
Olhei minha poltrona, estava vazia. Sentei e fiquei na agonia de aparecer na porta, o verdadeiro dono do ticket berrando com o dedo apontado para mim. Cada vez que entrava alguém no vagão, eu respirava fundo e abaixava a cabeça. Umas das piores situações. Eu me via sendo posto para fora do vagão como um mendigo. Finalmente o vagão começou a andar. Relaxei meu corpo. Tinha conseguido! Só foi o trem sair da estação e eu ser servido com a comida e o café, que peguei no sono! Só acordei quando o trem parou na estação em Ollantaytambo. Reencontrei meus companheiros de trekking, comemoraram minha chegada! Procurando a van que deveríamos pegar – reservadas também pela agência – encontro o cara com a placa com os nomes do pessoal. Em vez do meu nome nela, estava também o nome do cara que eu havia roubado o ticket – Erick Hammand. Sem pensar duas vezes, no momento da chamada, respondi um “eu” quando o cara citou o nome. Pegamos o micro-ônibus rumo a Cuzco. Dormi no micro-ônibus e só acordei em Cuzco.
Fazia frio, estava chovendo. Eu tinha decidido a ficar n hostel com a galera do trekking. Porém tinha antes que pegar minhas coisas na casa da família que havia me hospedado. Despedi-me deles com um simples até logo, afinal, em minutos nos reencontraríamos e comemoraríamos o longo dia bebendo cerveja. Segui para a casa da dona Glódis. Ela ficou surpresa ao me reencontrar. Estava preocupada que eu não voltava mais, preocupada principalmente por ter partido doente. Peguei minhas coisas, me despedi dela e de sua família, e segui debaixo de chuva a procura do hostel EcoPackers. Quando encontrei, a decepção, estava lotado. Pedi ao atendente se tinha passado um loiro com uma baixinha, que seria o Glen e a Dina. Ela confirmou. Segui pela segunda vez caminhando por Cuzco a procura de um abrigo para dormir. Não queria voltar à pensão da família e pagar o valor alto que ela cobrava. Segui caminhando pela cidade a procura de uma vaga em hostel. Até encontrar um casal numa rua escura e sem movimento. Não queriam parar para falar comigo. Quando perceberam que eu era um mochileiro a procura de abrigo, conversaram comigo. Falaram que eu estava procurando no lugar errado, que aquela era uma região perigosa, principalmente aquele horário.
Por sorte, caminhei umas 4 quadras e encontrei um nojento albergue com vaga, já era meia noite. Paguei $25,00 soles por um quarto privado. O banheiro era terrível. Tomei um banho de três minutos. Desfiz minha mochila, espalhando tudo em cima da cama. Separando as coisas sujas e molhadas do que ainda era possível usar. Organizei a mochila, deixando-a pronta para partir cedo no dia seguinte.
Tinha chego ao fim este que foi um dia longo e cheio e emoções!


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Glauco
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2 Comments

  1. Maneca Reply

    Cara, que coisa mais linda! Obrigado por permitir que eu daqui tão longe, sinta o clima e os mistérios que cercam Machu Picchu. Parabéns pela força de vontade de realizar mais um sonho.
    Abraço. Manéca.

  2. Glauco Reply

    É Maneca! O lugar é mágico e de tirar o fôlego! Por mais que eu tente não é fácil descrever o que sente estando lá. Valeu por sempre acompanhar o blog.
    Abraços, Glauco.

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