Mochilão América do Sul – Dia 19 – Perrengue de Juliaca à Oruro – Bolívia

Lago Titicaca (4000m)
Acordo assustado com alguém falando rápido e cutucando meu ombro. Ainda aéreo e sem conseguir assimilar o que os dois motoristas falavam em espanhol, fui orientado a sair do ônibus. Eu estava em algum lugar completamente desértico. Não via luz alguma. O frio era implacável e fez com que eu perdesse o sono rápido. Quem me acordou foi o motorista e um auxiliar. O ônibus tinha estragado, as pessoas foram relocadas para outro ônibus, mas eu, não sei por que, não acordei e acabei ficando para trás. Falaram estúpidos que eu deveria pedir carona para alguém que passasse na rodovia. Entregaram minha mochila e voltaram para o ônibus. Tentei reclamar, mas não adiantou. Esperei então por uns 10 minutos e apareceu um ônibus. Pulei, gritei e agitei os braços e ele parou. Nesse momento o motorista do meu ônibus me ajudou a explicar a situação para o motorista do ônibus que parei. Pediu se ele poderia me levar até Juliaca. Sem vontade alguma e antipático, o motorista aceitou.
Entrei no ônibus e ele imediatamente pediu $10,00 soles. Dei o dinheiro e pedi o comprovante de passagem, ele disse que não daria. Obviamente ele iria embolsar a grana. Segui viagem na cabine com o motorista. Como o ônibus não tinha ar quente, muito menos ar condicionado, uma janela permanecia sempre aberta. O frio era extremo, me doíam as pernas. Passamos por montanhas nevadas. O motorista não conversava, e eu morrendo de medo que ele pegasse no sono, não conseguia dormir. De repente alguém começa a bater na porta da cabine. O motorista disse que não abriria. Eu fiquei calado. Chamaram de novo mas ele se negou a parar o ônibus para atender.
Logo após passarmos um pedágio, o motorista para o ônibus num estacionamento. Imediatamente 4 ou 5 passageiros abrem a porta lateral do ônibus e avançam na minha janela. Eles tinham certeza que o ônibus tinha sido assaltado por mim. Então começaram a falar alto apontando pra mim. Eu não entendia o que falavam. O motorista saiu da cabine e tentou se explicar com eles, não deu certo. Então eu mesmo tive que explicar a situação. Queriam me tirar do ônibus e me abandonar no meio do nada. Eu já estava desesperado. Se eu ficasse naquele frio por lá iria morrer. Pois tremia mesmo dentro da cabine.
Após um grande bate boca consegui convencê-los que eu não era um assaltante, mas sim um mochileiro numa pior.
O motorista seguiu viagem, resmungando. Eu já não sentia meus pés, tamanho frio. Jurei pra mim que iria sair do Peru o quanto antes, já estava cheio dos perrengues que tinha passado nesse país. O motorista ainda deu carona a mais um cara, que ficou sentado do meu lado. Situação ruim pra caramba. Frio, com sono porém com medo de o motorista dormir e ainda um cara estranho do meu lado.
Chegamos a Juliaca as 04:00 hs. Saí do ônibus e fui direto procurar o guichê da agência que eu tinha comprado a passagem. Queria um ônibus para seguir viagem e meus $10,00 soles de volta. O guichê estava fechado. Procurei um guarda e pedi o que deveria fazer. Ele me disse onde era a administração do terminal. No guichê informava que abriria as portas as 09:30 hs. Eu estava morrendo de raiva, frio e sono. O escritório administrativo abriria somente as 07:30 hs. Tentei ligar várias vezes para o telefone que indicava no guichê da empresa de ônibus. Ninguém atendia.
Trânsito em El Alto

Sem alternativa, me deitei no chão agarrado com minha mochila e tentei dormir. Eu estava praticamente um mendigo. Conseguia apenas alguns cochilos. O frio e o medo de ser roubado me incomodavam. Sem contar a angústia de não saber o que seria daquele dia.

As 07:30 hs vi alguém no guichê que veio pegar alguns papéis. Imediatamente fui lá e chamei o cara. Falei que queria meus dez soles de volta e um ônibus para Puno ou Desaguadero. Ele mostrou em um computador que indicava que meu ônibus já estava chegando a Arequipa. Perdi o controle e dei uma porrada na mesa. Exigi meu dinheiro de volta. Veio uma mulher com um bebê, ela disse que era do mesmo bus que eu. Falei para o cara que também devolvesse o dinheiro dela. Ele continuou se negando. A coitada da mulher falou para eu desistir, que eles não pagariam.
Dei mais uma porrada no balcão, todos na rodoviária me olhavam calados. Disse para o cara que procuraria a polícia turística e a direção do terminal. Dei as costas e ele me chamou. Pegou e deu meu dinheiro de volta, cobrando apenas o valor que seria de Chiway a Juliaca. Mandei ele devolver também o dinheiro a mulher que segurava o bebê no colo. Ele o fez. Antes de sair ainda chamei ele de peruano idiota e ladrão, e recomendei a todos que esperavam para comprar passagem ali – já formando fila – que comprassem em outra empresa.
Saí perguntando para as pessoas como eu poderia chegar a Puno ou Desaguadero. Todos me informavam que não sai ônibus de Juliaca para estes lugares. Então um cara veio conversar comigo e me informou que eu poderia chegar a Puno pegando um ônibus clandestino, em uma rodoviária clandestina do outro lado da cidade. Falou que custaria pouco e que eu deveria pegar um daqueles triciclos parecidos com os tuc-tuc da Índia.
Saí da rodoviária e contratei um motorista de tuc-tuc para me levar para esse tal terminal clandestino. O motorista disse que custaria $3,00 soles. Seguindo pelas estradas esburacadas de Juliaca, chegamos à rodovia. Ao invés do motorista parar para observar o momento de atravessar, resolveu seguir direto. No meio da rodovia vejo uma enorme carreta vindo pra cima de nós, buzinando. Por muito pouco não somos atropelados pela carreta por conta da ignorância do meu motorista. Ele ainda saiu xingando o motorista do caminhão. Eu já estava achando que seria difícil sair vivo do Peru.
Chegamos num beco onde havia dois ônibus velhos buzinando informando que estavam partindo para Puno. Comprei uma passagem para Puno (45 min de viagem) por $2,00 soles!!! Podem imaginar o estado do ônibus!
Claro que informavam que o ônibus estava partindo somente da boca pra fora. Esperei dentro do ônibus – que estava ligado – uma hora até partirmos. Em 45 minutos chegamos a Puno. Na rodoviária pedi se tinha bus para Desaguadero (cidade de fronteira com a Bolívia). A moça me disse que eu deveria pegar um táxi até o terminal de vans, outro terminal clandestino. Assim o fiz. Mais três soles para andar apenas três quadras! Eu já nem queria saber, estava farto dos malditos peruanos e seus trambiques. Queria sair nem que correndo do Peru de volta à Bolívia.
Transporte coletivo na Bolívia

No terminal de vans, embarco em uma para Desaguadero. Ao meu lado, sentam na van dois estudantes peruanos que estudam na Bolívia. Estão cursando Odontologia. Um deles era ateu e conversamos bastante a respeito do assunto. Era um jovem com bastante conhecimento político. Comentou a situação do Peru em diversas áreas. Essa passagem da van para Desaguadero me custou $10,00 soles.

Quando chegamos, caminhamos até o centrinho que fica antes da ponte que divide a Bolívia do Peru. Despedi-me dos dois peruanos e fui fazer a documentação de saída do Peru. Tive ainda que tirar umas cópias de documentos antes de conseguir e liberação. Em seguida fiz câmbio, eliminando todas as notas de soles que possuía. Atravessei a ponte, estava de volta à bagunçada e ainda muito indígena Bolívia! Finalmente!
Desaguadero é uma cidade horrenda. Assim que fiz minha documentação para entrar legalmente na Bolívia, cruzei uma série de barracos que vendiam coisas de todo tipo. Em uma tenda havia feto de llama defumado, pendurado pelo pescoço. A cidade é muito suja e o trânsito de pedestres, bicicletas, triciclos-bike-táxi, carros e caminhões é uma bagunça. Um homem em cima de um ônibus anunciava a partida para La Paz por $10,00 bolivianos. Joguei meu mochilão pra cima do bus, o conferi amarrando e entrei. O bus estava vazio, e eu sabia que teria que esperar encher. Sentei-me na janela e fiquei observando a muvuca na cidade.
Nessa cidade as margens do Lago Titicaca são repletas de lixo, e muito esgoto corre a céu aberto. Mas o que me impressionou foi ainda pior. Vi uma chola já de idade avançada se aproximando da margem do lago. De repente ela segurou a saia, se agachou, e quando levantou vi a urina escorrendo em direção ao lago.
Fiquei boquiaberto com a cena, louco de vontade de filmar. Não demorou muito veio outra. Depois outra! Então chegou um senhor, resolveu fazer a sua parte também, e no caminho pisou em cima de onde tinha acabado de urinar uma das cholas. Arhgt eu queria sair logo daquela cidade!
Suspirei quando o bus deu partida rumo a La Paz.
Paisagem nada atraente até chegarmos em El Alto. E como sempre em El Alto pegamos um trânsito infernal, cheguei as 15:00 hs a La Paz.
O ônibus parou em um beco, e não na rodoviária. Pedi se era longe da rodoviária e todos recomendaram pegar um táxi. Resolvi ir caminhando pelas ruelas de La Paz. Por sorte o bus parou bem no alto da cidade, e só tive que ir descendo até chegar à rodoviária. Perdi-me várias vezes e pedi muitas vezes informações também, mas gostei de me perder por lá. La Paz parece uma grande favela, e fiquei orgulhoso de mim mesmo por me “encontrar” lá dentro.
Na rodoviária procurei ônibus para Oruro. Eu não queria tocar direto para Uyuni porque já conhecia a fama da rodovia. Pretendia pegar um bus pra Oruro, e de lá, com um pouco de sorte, pegar o trem até Uyuni.
Comprei passagem para Oruro para as 18:00 hs. Como já era quatro da tarde, resolvi almoçar, minha primeira alimentação razoável do dia. Deixei a mochila no guarda volumes, $6,00 bolivianos, uma facada!
Bem próximo a rodoviária encontrei um restaurante que vendia um prato feito por $15,00 bolivianos. Prato composto por batata, arroz, salada e pollo. Tomei uma Sprite. Comi tudo, inclusive a salada que era crua.
La Paz

Ao sair do restaurante, encontrei uns brazucas perdidos. Estava passando informações a eles quando veio uma atendente do restaurante. Eu tinha esquecido $4,00 bolivianos e a chave do guarda volumes em cima da mesa do restaurante! Fiquei muito feliz com a atitude da garota e dei de gorjeta esses quatro bolivianos. Senti-me finalmente longe do Peru e das trapaças de lá. Como é bom estar num país onde as pessoas são honestas!

Peguei o ônibus para Oruro e em pouco tempo estava dormindo. Cheguei ao terminal de Oruro as 22:00 hs. Claro que eu não tinha reserva nem mesmo o nome de um hostel para ir. Sai procurando. Todos lotados. Por sorte, encontrei um muquifo por $30,00 bolivianos! Mas ao menos o quarto era privado e tinha internet wi-fi. Consegui conectar com o celular.
Antes de dormir dei uma volta e comprei uma Coca e um pedaço de frango. Deu uns $8,00 bolivianos, não tenho certeza.Peguei no sono com a esperança de dias melhores e menos cansativos. Claro, feliz por estar longe do Peru!

Gastos do dia:

Ônibus de Chiway para Juliaca: $9,00 soles
Tuc-tuc + bus clandestino para Puno: $5,00 soles
Táxi em Puno: $3,00 soles
Van para Desaguadero: $10,00 soles
Gastos com Xerox em Desaguadero: $1,00 sole
Ônibus Desaguadero – La PAz: $10,00 bolivianos
Almoço: $15,00 bolivianos
Guarda volumes: $6,00 bolivianos
Ônibus La Paz – Oruro: $25,00 bolivianos
Hostel tosco: $30,00
Frango e Coca: uns $8,00 bolivianos

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2 Comments

  1. mmerteuil Reply

    cara, cada capítulo que eu leio eu fico impressionada com a sua capacidade de se meter em roubadas !! hahaha vc realmente passou por umas boas nessa trip …
    (Clarissa)

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