Mochilão Monte Roraima – Dia 3 – Tepequém – Brasil

Queria ter voado

Choveu durante a noite e não dormi direito. As 06:00 hs levantei e fui esperar o condutor Denilson. Ele acabou não aparecendo, fiquei indignado. Decidi que então faria a caminhada na serra no dia seguinte, já que a tentativa de usar um condutor local não deu certo.

Fiquei sentado sobre um monte de cascalho na beira da rua, próximo ao nosso acampamento. Não havia ninguém, somente alguns cachorros e cavalos perambulando sozinhos. Mais tarde o Juan acordou. Tomamos um café da manhã improvisado com chá e bolachas.
Devia ser próximo das 08:30 hs quando resolvi ir para as cachoeiras. Ninguém sabia informar a distância certa, tampouco havia placas informando. Peguei um pacote de bolachas, água e suco em pó. Também levei a câmera, afinal, mesmo que não houvesse nada tão importante para fotografar, eu tinha que praticar. O sol ainda não estava tão forte, caminhei talvez uns vinte minutos por uma estradinha estreita, quando escutei uma moto vindo. Assim que consegui avistá-la, acenei pedindo carona. Um rapaz estava pilotando, falou para eu subir. Com a câmera em uma mão, e a outra segurando na moto, seguimos pelos zigueszagues da estrada. Logo senti um cheiro de maconha. Ele de óculos e sem capacete, pediu se eu fumava. Disse a ele que não.
Ele já bem chapado, ficava olhando para a paisagem que ficou para trás e dizendo: – Que lugar louco, que lugar lindo!
Eu com medo de cair com minha câmera na mão não tirava o olho da estrada. De repente vi uns buracos e berrei: – Cuidado!
Ele deu uma freada, e passamos muito rápido pelos buracos. Por pouco não caímos.
Logo após esse incidente, chegamos a um estacionamento, onde tinha uma placa informando a existência de uma cachoeira. Cachoeira do Paiva.
Descemos da moto e entramos na trilha. Já no início ele saiu da trilha e foi para outro lado, eu segui pela trilha.
Na minha frente havia um pai com duas filhas. Vendo a câmera ele logo pediu se eu podia  tirar umas fotos das garotas. Disse que eram cantoras evangélicas e que viajavam o Brasil cantando e tals.
Disse que poderia fazer sim umas fotos, já pensando na possibilidade de pegar carona em troca 😉
A cachoeira tem uns vinte metros de altura. Não é nada fora do comum para alguém aqui de Santa Catarina. Mas o pessoal de Roraima a acha  fantástica. Tirei umas fotos do lugar, algumas das garotas e então voltei para a estrada. O rapaz da moto eu não sabia onde estava, escrevi com um graveto no chão ao lado da moto: – Segui pela estrada.
Como a estradinha continuava, continuei caminhando, para chegar até as outras cacheiras que eu tinha ouvido falar. A estradinha acabou e nesse ponto consegui uma foto melhor da cachoeira que tinha visitado. Após umas fotos e goles de suco, entrei na trilha em meio à mata para encontrar as outras cachoeiras.
Eu estava morrendo de medo, não tenho o hábito de andar no verão em mata fechada. Há um enorme perigo com cobras. Arrepiava-me só de pensar em ser picado e estar sozinho ali.
A trilha foi ficando cada vez mais fechada e nada de cachoeiras! Depois de um tempo caminhando em meio a mata fechada e já abrindo espaço com os braços para abrir a trilha, cheguei à um barraco com teto de lona. Acredito que era um barraco de garimpeiros clandestinos. Ainda há alguns ermitões em Tepequém que vivem desta forma.
Cachoeira do Paiva

Uma coisa eu tinha certeza, a trilha que eu estava não era usada por turistas. Fui até um córrego, que seguia rumo ao abismo. Descansei um pouco, tirei umas fotos e decidi voltar. Já estava perigoso demais.

Voltei até o estacionamento da cachoeira do Paiva. Havia um senhor encostado em uma Amarok. Cumprimentei ele e pedi para onde que ficavam as outras cachoeiras. Ele disse que era do outro lado do vilarejo. Puts! Suado do jeito que estava, lamentei.
Ele então abriu um isopor da carroceria da picape e me deu uma Coca-Cola geladíssima. Nem pensei duas vezes haha.
Ficamos conversando um tempo. Ele é médico em Boa Vista, conhece muitos lugares no Brasil e sua esposa é gaúcha. Estava ali com os filhos e uma sobrinha, estavam na cachoeira. Disse para eu esperar que logo eles deveriam estar voltando e que me dariam carona até o vilarejo.
Chegaram suas filhas, o futuro genro e a sobrinha. Eles ficaram na carroceria e eu fui na cabine.

Ao chegar na vila, ele me passou seu telefone e disse que quando eu voltasse à Boa Vista, era para ligar para ele que ele me mostraria toda a cidade. Agradeci a carona, a coca e a gentileza e me despedi.

Quando pensei em voltar para o acampamento, ouço alguém me chamando. Eram as garotas que eu tinha fotografado. Fui até a varanda onde elas estavam. Resolveram passar o e-mail de contato para eu passar as fotos. Uma garota que estava junto tinha um notebook e então aproveitei e passei as fotos.
Me despedi mais uma vez delas e voltei ao meu acampamento.
Assim que cheguei e comecei a contar a Juan sobre a cachoeira, as vizinhas de um acampamento a 50 m do nosso nos chamaram. Eu tinha conhecidos as garotas e a família na noite anterior.
Eles tinham feito almoço e nos convidaram para almoçar com eles. Já estavam fazendo as malas, iriam voltar à Boa Vista. Eu e Juan comemos e ficamos conversando com eles até partirem. Pessoal muito gente fina.
No meio do nada!

Depois que partiram, resolvi que iria para as cachoeiras que ficam do outro lado da vila. Ouvi dizer que ficam a 8 km. Arrumei minha mochila de ataque e parti novamente, sob um sol fortíssimo. É preciso caminhar 150m do vilarejo para se sentir completamente só. Estrada de cascalho, morros e mais morros. Por um longo trecho nenhum carro nem moto passou por mim. Caminhava no meu ritmo, de vez em quando uma fotografia para distrair. A grande dificuldade é a inexistência de sombra. Tinha que parar para descansar sob o sol forte mesmo.

Cheguei então a uma bifurcação, de um lado seguiria para a cachoeira do funil e outro para a cachoeira da barata. Estava vindo um grupo de motociclistas, com suas Big Trails, pedi a eles qual valeria mais a pena visitar. Indicaram a da barata.
Segui caminhando mais cinco minutos, então passou um Palio e parou. Era um casal, da minha idade oferecendo carona. Entrei no carro e fomos até a cachoeira. Economizei 2km de caminhada. O casal é de B.V. Ele estudante de história, ela formada em contabilidade, mas trabalha em banco.
Juan e eu

Foi a garota mais linda que vi em Roraima, em todo o período que estive no estado.

Fomos até a cachoeira, que me decepcionou. Pelas fotos que vi na internet parecia maior. A água é turva e nada convidativa. Resolvi deitar e descansar sobre a lage de pedra. O casal ficou tomando banho junto com outras pessoas que estavam no local.
Ao deixar o local, vi um caminho que seguia a partir da trilha que estávamos. Acompanhado de uma plaquinha “camping”. Acabei ficando só na curiosidade e não fui ver.
Ao voltar ao carro, vi umas escritas meio apagadas nos vidros. Pedi o que era. O casal então disse que tinham se casado na sexta feira (era domingo nesse dia) e estavam de lua de mel em Tepequém!
Ai carai! Eu de carona num carro de um casal que devia estar nessa hora… bem, você entende. Logo foram me avisando que se eu encontrasse camisinha no banco de trás, eram os amigos deles que haviam espalhado por todo carro.
Anoitecendo em Tepequém

Pedi para me deixarem na bifurcação da estrada. Ali me despedi do casal e ainda fui convidado a voltar com eles para Boa Vista na manhã seguinte.

Resolvi ir caminhando para a cachoeira do Funil. Depois de andar talvez um quilômetro começou a chover. Eu estava morrendo de medo de deixar a câmera úmida na mochila de ataque. Por sorte vinha uma picape e pedi carona. Na carroceria fui com mais três homens. A picape não andava a menos de uns 60 km/h mesmo sobre buracos! Para ajudar, tinha um cão vira-lata também na carroceria que não parava de me atacar. Foi uma arte conseguir me segurar na picape e me defender do cachorro naquela velocidade! 
Cheguei de volta à Tepequém e fui comprar mais comida. Nesse dia eu e o Juan jantamos sentados na beira da estrada em frente ao nosso acampamento, vendo o por do sol. Foi um lindo por do sol e uma ótima conversa. Difícil não pensar que eu poderia estar com meu pai ou avô ali. Espero chegar a essa idade com esse mesmo espírito aventureiro e livre dos desejos materiais como o Juan!
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Glauco
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