Mochilão Monte Roraima – Hiking em Tepequém – Brasil

Eu tinha planejado acordar cedo nesse dia, mas não consegui. Eu não tinha o que comer, então arrumei minhas coisas para fazer a caminhada na serra. Fui ao mercado e comprei bolachas e pilha para o GPS. Depois de passar no mercado do Chico Dólar, fui até um restaurante, onde pedi pão com queijo, presunto, ovos fritos e um copo de achocolatado. Estava quente esse dia, mesmo as 09:30 hs. O achocolatado para minha surpresa veio com leite quente!
O lanche veio saboroso. Na hora de pagar a conta vi que tinha pão de forma, coisa rara de encontrar em Tepequém! Falei para a senhora que me atendeu que já ia pagar um pão. Porém eu só pegaria na volta.
Segui caminhando rumo a serra pela rodovia. Meus pés pareciam ferver dentro da bota. Dessa vez não tive tanta sorte, caminhei por mais de 30 minutos até que ouvi uma moto vindo. Pedi carona. O motoqueiro parou e mandou eu subir. Subi toda a Serra de Tepequém na garupa de uma moto sem capacete. Falei para o cara me deixar onde iniciava a trilha para a parte alta da serra. Ele disse que me deixaria na casa do Davi. Minutos depois chegamos no tal lugar. O motoqueiro foi embora.
Chamei pelo Davi, e fui atendido por um rapaz de não mais que 15 anos. Falei que queria caminhar pela serra e me recomendaram o Davi. O rapaz disse que o Davi não estava e que ele não podia me guiar. Porém apontou o início da trilha.
Liguei o GPS e fiquei na torcida para que encontrasse sinal. Mais uma vez meu GPS não me deixou na mão.
Comecei a caminhada pela trilha, mais uma vez com receio de encontrar cobras devido ao calor. No início a trilha passa por um terreno baixo e úmido, há muito capim. Então quando começa a subir, a vegetação vai ficando rasteira, até se tornar caatinga. Não era uma subida muito íngreme, mas percebi que o calor dificultava o meu desempenho. Em um trecho plano, de capim rasteiro onde a trilha ficava bem demarcada, pude avistar uma casa sobre pilares altos, com vista para Tepequém. Próximo corre um riacho. Um belo lugar para ter um sítio! Principalmente por estar a 30 minutos de caminhada da casa mais próxima e não ter acesso de veículos.
Passando essa casa, logo cheguei ao ribeirão que tem as cachoeiras. Dá pra ver essas cachoeiras do vilarejo de Tepequém. A água é dourada, não tive coragem de beber. Pude ter a certeza que eu era a primeira pessoal a estar nessa trilha nesse dia. Não havia sinal nenhum no chão de rastros de bota.
A trilha começou a ficar mais difícil de reconhecer, pois terminava sempre sob grandes lajes de pedra. Sempre nesses lugares eu marcava no GPS como um ponto de atenção. Também não havia totens indicando o caminho. Toda trilha, tem totens nos lugares mais fáceis de se perder. Logo imaginei que era para leigos não continuarem a trilha. Minunciosamente eu analisava e acabava encontrando a continuidade.
Passeio por pequenos lagos, piscinas que estavam convidativas para um banho. Decidi que na volta eu iria dar uma relaxada em uma delas. Nessa trilha eu frequentemente me assustava com lagartos que saiam em disparada quando eu passava próximo deles. E eles ficavam tão camuflados que eu nunca via até saírem correndo e eu dando um pulo. Eu realmente estava morrendo de medo de encontrar uma cobra. Sabia que aquela serra também é local de onças. Todos no vilarejo me falaram isso. Sem mais uma gota de água, cheguei à parte alta da serra. Mesmo lá em cima, brota água de nascentes. Porém a vegetação faz com que a água tenha a cor dourada. Quando cheguei a um local com melhor visão, armei o tripé e comecei a fotografar e me acostumar com a câmera num ambiente outdoor.
Fotografei todos os lados. A serra tem uma parede de rocha linda, cheia de saliências sobre o abismo. Gostei muito do local. Caminhei ainda numa parte sem trilha, no meio do mato mesmo. Embora tinha medo de cobras, a beleza do lugar era contagiante e resolvi encarar.
Fiquei no alto da serra talvez por uma hora. Quando percebi que vinha chuva, comecei a regressar. Como a região é plana, o tempo nos engana. O tempo ficou fechado caiu até umas gotas, mas o vento levou a chuva para outro lado. O sol forte voltou a reinar e quando cheguei de novo ao pequeno lago, decidi que tomaria banho. Dei uma olhada na trilha para ver se mais alguém tinha passado, mas não havia mais nenhum rastro fora o meu. Tirei toda a roupa e tomei um banho nu. Foi ótimo se sentir completamente desapegado; sem roupas, sem lar, sem conhecidos por perto, quase no ponto mais ao norte do país!
Depois do banho resolvi seguir pelo ribeirão. Desci um trecho da serra seguindo o curso dele até chegar às cachoeiras. São pequenas cachoeiras não verticais, mas de laje. Uma pena que tinha pouca água.
Essa caminhada foi bastante prazerosa. Tive sorte com o tempo e também por não ter encontrado nenhum animal peçonhento. Voltando à estrada, tive a sorte de caminhar só 10 minutos e conseguir uma carona. Depois que fiz sinal um cara com uma Honda Falcon parou e fez sinal para eu subir. O cara pilotava super rápido. Morri de medo descendo a serra naquela velocidade. Chegando na Vila Tepequém, ele parou e eu desci. Peguei essa carona sem o cara dizer uma só palavra!
Fui até o restaurante onde eu tinha encomendado pão, eu havia reservado um pão de forma, mas a mulher me deu um pão de cachorro quente. Fiquei com raiva.
Voltei para meu acampamento e perto das 19:00 hs fui para o mercado do Chico Dólar e contei para a galera que estava sentada na varanda do mercadinho. Ficaram impressionados por eu ter feito essa caminhada sozinho. Falaram que turistas jamais vão sozinhos fazer essa trilha. Acho que o espanto deles se deve ao fato de alguém do sul, atravessar o país todo e se embrenhar no meio do mato de um lugar que nunca esteve antes. Fiquei feliz pelo espanto deles e pelo meu sucesso em conseguir navegar bem usando o GPS em um ambiente outdoor e inóspito como aquele. Além da minha capacidade de reconhecer trilhas disfarçadas 🙂
No jantar comi sardinha com pão. Que durou só duas bocadas. Complementei com bolachas.
Esse foi meu último dia em Tepequém. Nessa noite me despedi do Juan, que foi um grande amigo durante todos esses dias. Prometi visitá-lo em El Bolsón. Combinamos também de fazer uma viagem com o Land Rover dele pela Patagônia. Despedi-me nessa noite porque no dia seguinte eu iria partir as 05:15 hs.
Obs.: Para sair de Tepequém fora segunda, quarta e sexta, você tem que arrumar carona ou pagar alguém para te levar. Contratei o “Pézão”, cara confiável que não me deixou na mão e me levou de moto em velocidade normal (hehe) até o pé da serra. Cobrou só R$ 10,00. Difícil foi descer a serra com um mochilão daquele tamanho nas costas!
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Glauco
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