Trekking Pico Paraná

Cheguei à rodoviária de Joinville e logo um artista de rua veio conversar comigo. Pediu se eu realmente tinha estado nos países das bandeiras bordadas na mochila. Confirmei que sim. Imediatamente ele começou a falar em castelhano. Visivelmente com saudades de falar na sua língua materna. Era um argentino dos pampas, muito simpático. Logo que ele foi embora chegou o Jonas. Fomos até onde estava o carro do Cidral e partimos para a Fazenda Pico Paraná. Chegamos às 21h30min na porteira da fazenda, lembrando que fecha as 22h00min.Pagamos R$ 15,00 cada um e montamos acampamento, já deixando combinado acordar as 04h00min para iniciar o trekking as 05h00min. Fomos dormir ainda antes da meia noite. Passei frio durante a noite. E acordei com o isolante térmico do meu lado, e não embaixo do saco de dormir. Estranhei o fato de ter passado frio, pois com o saco de dormir novo é para extremo -3ºC, eu jamais deveria ter sentido frio. Tomei um achocolatado e comi duas bananas de café da amanhã. Não estava chovendo, fazia um pouco de frio. Com as mochilas nas costas e a headlamp ligada começamos a procurar onde iniciava a trilha. Nem isso sabíamos! Encontrei uma placa com informações do parque e um caminho ao lado dela. Achei que deveria ser aquele e começamos o tão esperado trekking. Até chegar a Pedra Mirante, o Jonas e o Cidral estavam se sentindo meio mal. Estavam achando meio pesado o início da trilha.
Considerei que estavam ainda se acostumando, geralmente a primeira hora de caminhada é meio ruim mesmo. Após passar o Pequeno Lago, desliguei a headlamp, estava mais claro e já podia ver com tranqüilidade a trilha.
Chegamos ao Morro do Getúlio e encontramos dois militares que estavam na noite anterior montando barracas ao lado da nossa. Fizeram um bate volta noturno ao Pico Paraná (PP) e já estavam voltando. Do Morro do Getúlio pudemos ver o Caratuva, mas a neblina já estava subindo. Antes mesmo de chegar à base dele a serração nos alcançou. A partir desse trecho começaria um longo percurso pela mata fechada. Até chegar à bica (com cano e tudo), a trilha é boa nesse trecho. A partir dali começa um trecho mais íngreme e com atoleiros. Quando chegamos à bifurcação Caratuva-PP, já estávamos molhados, pela serração e pela vegetação. Seguindo a trilha, começaram a ficar mais freqüentes os atoleiros. Ao passar outra bifurcação, a Itapiroca-PP nós já estávamos acostumados com a trilha. Muitas pedras, raízes para transpor (por baixo ou por cima) e pequenos desníveis de até 2 metros. Levei um tombo ao escorregar em uma pedra e caí em cima de meu bastão de caminhada, guerreiro de muitos trekkings, dessa vez ele entortou. Apoiando em uma raiz fiz o que pude para alinhá-lo novamente, ficou 80% haha!
Seguimos caminhando ao redor do Caratuva. No mapa que peguei na internet tinha apenas dois pontos de água nessa encosta. Uma logo no começo e outra antes do A1 (acampamento 1). Porém encontrei a da Bica, e mais três antes do A1. Como nos abastecemos por completo na Bica, passamos sem parar pelas outras. No A1 fizemos uma breve parada deixando as mochilas de lado. Não tínhamos mais que uns 40 metros de visibilidade. Serração bem densa, de molhar tudo! Desse ponto imaginei que levaríamos mais duas horas até o A2 (acampamento 2) e sabia que só encontraria água no A2 mesmo. Começamos a descida pela encosta do Caratuva até alcançar a subida que leva ao A2. Essa trilha é bem estreita, e como a vegetação é de altitude – mais baixa – engatávamos em muitos galhos. A água da chuva afeta bastante essa trilha, que acaba se tornando um canal de escoamento. É muito úmida e com grandes atoleiros. Possui pequenos lances com até 4 metros de desnível, onde é preciso escalaminhar (mais difícil que uma caminhada, uma escalada não técnica, que não exige equipamentos). Próximos de chegar à encosta que leva ao A2, encontramos uma parede, a vimos de uns 70 m de distância. Na torcida de que não seria preciso passar por ali, continuamos a caminhada.
Quando a trilha deu bem na base dessa parede, paramos e olhamos um para o outro. Estava quase garoando. Mochilas e roupas encharcadas. Uma parede de pedra sobe uns 4 metros, em seguida há que fazer travessia pelas rachaduras de mais 3 metros, e então subir uma parede de uns 8 metros. Um pouco antes de chegar à base dessa parede, vimos uma faixa daquelas de atenção, amarelo-preto. Não queríamos acreditar que teríamos que escalaminhar esse trecho ali, sob aquelas condições! Escutamos pessoas descendo pela encosta do Caratuva e esperamos conseguir avistá-los. Quando os vimos, até um deles escutei dizer “- Não acredito que temos que subir aquilo lá!” Pensei o mesmo. Berrei pedindo se era esse mesmo o caminho. Confirmaram!
Esperamos eles nos alcançar e então tomamos coragem o subimos. Como disse o Cidral: “-Cara, isso é como jogar Mário com só uma vida!”.
Escorregadio, perigoso, sem proteção. Conseguimos subir. Não só essa, mas outras partes quase tão difíceis e perigosas! Chegamos ao A2 cansados, mas sem dores. Os quatro que seguiram conosco nesse trecho eram gaúchos. Um deles já tinha feito a trilha. Ofereceu-se para me mostrar o caminho da Pequena Bica. Fui com ele até lá e coletei água pra mim e para o Cidral e Jonas. Os gaúchos iriam continuar até o Cume. Nós já tínhamos planejado ficar no A2 desde o começo. Até mesmo porque nossas barracas não são auto-portante (que possibilitam permanecer montadas sem spek). Eles continuaram rumo ao cume e nós montamos nosso acampamento. Ao meio dia entrei na barraca. Torcendo que abrisse uma janela de tempo bom para partir para o ataque ao cume. Não imaginei que permaneceria ali por mais 18,5 horas! Serração fortíssima, quase garoa. Eu estava molhado e resolvi sentar em cima do isolante e esperar a roupa secar no corpo. Acho que por volta das 18h00min finalmente secou! Problemas. Embaixo do isolante, com o calor do corpo, precipitava água. A barraca estava montada num plano inclinado. A água debaixo do isolante escorria para o fundo da barraca. Joguei minha mochila encharcada no fundo da barraca, estendi o isolante e planejei como deveria dormir. Para evitar contato do saco de dormir com o chão, eu não deveria me mexer para os lados. E deveria permanecer com os pés encostados na mochila para não escorregar e amontoar o isolante térmico.

De jantar, fiz o strogonff de frango da AlimentAção. Ficou gostoso. Dentro da barraca eu escutava o pessoal passando rumo ao cume, e também alguns montando acampamento por perto. Acredito ter pegado no sono por volta das 22h00min. Era 01h30min quando acordei tremendo de frio. Eu tinha posto toda roupa que tinha. Não havia o que fazer. Fiquei olhando no relógio até 06h30min. Foi quando levantei e disse: – Vamos para o cume!
Já estava farto de passar frio, era tudo ou nada. Decidimos ir ao cume, voltar, desmontar acampamento e voltar para a fazenda. Como o tempo parecia não melhorar, e também a comida estava no fim (pelo menos pra mim), seria melhor e passar o domingo descansando em casa.
Partimos rumo ao cume debaixo de forte serração. Usando dessa vez roupa impermeável. Avançamos bem, caminhar sem mochilão é bem outro nível!
Esse último trecho antes do cume é super íngreme! Muita escalaminhada, algumas passagens expostas. Mas as paredes impressionam e nos motivam a continuar. É o trecho mais prazeroso eu diria. Antes do cume principal, temos um falso cume. De frente ele parece mais alto, mas logo que o passamos percebemos a grandeza e imponência do PP!

Chegamos ao cume com Sol, Sooooool! Pudemos ver todos os cumes ao redor. Mesmo havendo um tapete de nuvens, o momento foi ótimo! Então chegou a hora de bater as fotos, fazer vídeos, tirar o corta vento e sentir toda aquela energia que emana da montanha. Liguei o GPS e deixei em cima de uma pedra. Marcou 1885 metros. A imprecisão variava entre 7 e 10 metros. Valores corretos, pois a altitude real da montanha é de 1877,3 metros. Uma pequena decepção tivemos ao abrir a caixinha para assinar o livro de cume. Havia somente um lança perfume e metade de um charuto. Nada de livro de cume! Despedimos-nos dos gaúchos e iniciamos a descida atrás dos gringos – francês, italiano, colombiano – havia uma garota entre eles! Descemos devagar fazendo várias fotos. Nesse trecho foi bem tranquilo. Ao chegarmos ao nosso acampamento, fizemos almoço. Era só 09h30min. Em seguida, desmontamos o acampamento. Despedi-me dos dois senhores que estavam acampadas próximo de nós. ‘’Dois coroas boa praça’’, montanhistas das antigas! É sempre bom ver pessoas de idade praticando atividade física que muitos de minha idade fazem cara feia só de ouvir.

Já nesse início de retorno, a garoa estava ficando forte. Avançamos rápido até o trecho difícil de escalaminhada. Encontramos dois montanhistas subindo, e nos informaram que vinha ainda um grupo de 40 bombeiros! Quareeenta!

Poxa, tentamos apertar o passo. Não é nada legal tentar fazer algo arriscado mais rápido que o normal. Mas se não tentássemos, ficaríamos um bom tempo esperando esse pelotão subir. Ao chegar à parte mais difícil, encontramos alguns bombeiros. Dei bom dia e pedi se podíamos descer, já que éramos apenas três. Eles cederam. Até mais rápido que imaginamos, conseguimos passar e garantir mais uns anos de vida! hahaha O problema agora seria outro. Vocês podem imaginar como fica uma trilha já enlameada após passar 40 pessoas uma atrás da outra? Terrível! Os trechos de atoleiros tornaram-se verdadeiros lagos de lama! E a serração nos acompanhava. Sempre! Passando pela encosta do Caratuva, encontramos muitos trekkers seguindo para o PP. Inclusive três espanhóis. Acredito que pela quantidade de gente que subiu no sábado, deve ter faltado lugar no A2.

Depois de alcançarmos a bifurcação que dá acesso ao Itapiroca, o movimento da trilha foi bem mais intenso. Famílias, grupos de igrejas cantando suas músicas, pessoas caminhando sozinhas. Pegamos água de novo na Bica, último ponto de água que encontramos, e seguimos para o Morro do Getúlio. Tinha um sol agradável. Paramos para comer um lanche no Getúlio antes da descida final. Voltando a caminhar, nossa última parada para um respiro foi na Pedra Mirante. Havia dois trekkers com suas mochilas em cima da pedra. Um deles foi descer por uma pequena árvore ao lado da pedra. Escorregou e ficou pendurado pela mochila. Não sabia se eu ria ou ajudava!

Da pedra do Getúlio levamos apenas 20 minutos até a Fazenda Pico Paraná. Lá registramos nosso retorno e embarcamos de volta para Joinville. Na rodoviária despedi-me do Jonas e Cidral e fui pegar o 6 ônibus para Jaraguá do Sul. Nem preciso dizer a maneira que as pessoas me olhavam por estar com as botas cheias de lama e encharcada! Além de visivelmente cansado!

Esse foi um grande trekking! Muito aprendizado, alguns destes colocarei no blog com um post específico. Valeu pela companhia Cidral e Jonas! Consegui chegar a minha meta de cumes este ano. E para minha surpresa, farei mais um ainda. O maior de todos. O mais importante. Mais distante. E Por último, o mais antigo geograficamente falando. Monte Roraima! Aguardem!

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Glauco
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