Trekking Campos do Quiriri – Santa catarina

Os dias que antecedem feriadão são sempre de angústia quando se tem um trekking planejado. É preciso fazer acompanhamento constante da previsão do tempo, desenvolvimento tracklog para passar para o GPS, buscar informações sobre o local do trekking, logística e check-list da alimentação e equipamentos. A previsão para esse feriadão de Corpus Christi, era de tempo instável. No domingo previsão de 57mm!
Fui para Joinville ainda antes do sol nascer. Me encontrei então com o Diogo e o Jonas.
O pai do Diogo nos levou até o início da trilha do Monte Crista. Pagamos a taxa de R$ 3,00 e iniciamos a caminhada. As mochilas estavam pesadas, a minha tinha aproximadamente 14 kg. Como choveu nos dias anteriores, já na primeira parte da trilha tinha muita lama. O trecho mais escorregadio, apelidado carinhosamente de “saboneteira”, estava bastante molhado. Não levamos nenhum tombo, felizmente. Quando chegamos na “clareira”, que é uma área onde todos os trekkers costumam parar para descansar, por ser esse ponto a metade da trilha que dá acesso ao Monte Crista, enchemos os cantis na pequena cachoeira que tem próximo. O Diogo vacilou e acabou escorregando e naufragando uma bota na água. Acontecer isso no primeiro dia de trekking pode ser complicado.
Chegando próximo dos 800m de altitude, rajadas de vento começaram a surgir. Interessante que era um vento quente, abafado. Falei para o Jonas e o Diogo: – Isso não está me parecendo coisa boa!
Depois de alcançar o platô 900, tiramos as mochilas e descansamos um pouco. Combinamos de almoçar no rio Quiriri, em algum lugar acima da cachoeira “cabeluda”. Subimos em 4 horas essa trilha, um ótimo tempo levando em consideração que estávamos com equipamento e alimentação para quatro dias de trekking.
Continuamos a caminhada até chegar no rio Quiriri. Estávamos cansados e nesse trajeto, não encontramos trilha aberta, pois a idéia era seguir para o Rancho Salles, um abrigo de montanha nos campos do Quiriri.
Sentados na margem do rio, fizemos nosso almoço, o primeiro de vários miojos! Estava frio na sombra, e o vento atrapalhou um pouco a chama dos fogareiros.
Depois de almoçar, identifiquei uma trilha do outro lado do rio. Tentamos segui-la, mas parecia que há muito tempo ninguém a utilizava. Estava muito fechada e não conseguíamos abrir caminho com as mochilas engatando em tudo. Partimos para o plano “B”. Ao invés de ir pra Rancho Salles, resolvemos tentar ir até a Pedra do Lagarto. Porém a distância é bem maior, e já era 13:30 hs. Acho que todos nós desanimamos um pouco. Seguimos cansados pelos campos, até chegar nos primeiros morros. Que sacrifício foi subir a encosta desse primeiro morro! A cada 10 m parávamos para descansar. Numa dessas paradas, chegou um cara com uma garota. Ele na casa dos 40 anos e ela uns 17, talvez. Estavam fazendo a travessia M. Crista – Fazenda Quiriri. Era a primeira travessia da garota, que estava com muito mais fôlego que nós três juntos!
Eles seguiram na frente e nós uns minutos atrás. A parte mais inclinada já havíamos passado, mas nossas pernas já estavam bambas. Alcançamos ainda o cara e a garota, e trocamos rápidas palavras do tipo: – Nos vemos na Pedra do Lagarto. Então nós paramos para descansar e eles seguiram.
Eu estava com o GPS desligado, até mesmo porque essa parte eu já tinha caminhado sozinho ano passado. Chegamos em à uma bifurcação, para o lado esquerdo subia um pouco a trilha, para o lado direito era plana. Hahaha dei uma de preguiçoso e escolhi a aparentemente mais fácil. Não levou 10 minutos e eu disse para o Jonas e o Diogo que tínhamos pegado a trilha errada. Por sorte eles não se desesperaram. Resolvemos não voltar e insistir no erro. Comecei então a caminhar para a esquerda, tentando ganhar altitude e conseguir me localizar com alguma referência geográfica. Medo de me perder eu não tive, o problema que nossa água estava acabando, o vento estava ficando cada vez mais forte e já era 16h30min! Eu sabia que o único ponto de água seria na base da Pedra do Lagarto! Falei para os dois, vamos caminhar até encontrar uma referência, então seguiremos para a P. do Lagarto mesmo que seja caminhando à noite. Eles concordaram e começamos a subir o morro para ter uma visão melhor. Consegui enxergar a P. do Lagarto, e caminhei em direção ao local onde acampei ano passado.
Quando encontramos a trilha, passamos a caminhar com mais vontade. Estava frio, estávamos ainda só de camiseta. Chegamos à base da Pedra do Lagarto por volta das 17h20min. Havia umas seis pessoas acampadas próximo ao riacho. Estavam agasalhados, com barracas montadas e já preparando o jantar. Paramos para pegar água e colocar casaco. Falei brincando: vou levar meia hora para subir esse morrinho de merda! Mas olha, demorou mesmo! À passos lentos chegamos ao cume da Pedra do Lagarto. O vento estava fortíssimo! Digno de um vento patagônico! Encontramos lá em cima o cara com a garota, estavam tentando montar a barraca. Dei uma analisada na situação e falei para o Diogo e o Jonas, que teríamos que encontrar rápido um platô mais abrigado do vento, e logo! Estava quase ficando escuro e tínhamos que armar rápido as barracas. Acampamos há uns 20m verticais do cume, sentido leste. Foi difícil montar a barraca, o vento queria vê-la decolar. Eu nunca tinha montado a barraca sob ventos tão fortes.

Há que planejar previamente cada passo para montá-la. Caso contrário ela pode rasgar ou ser levada pelo vento. Montei minha barraca e fui ajudar o Diogo que ainda estava montando a dele. Assim que conseguimos nos abrigar, trocamos de roupa e começamos a cozinhar. Preparei primeiro um cappuccino de sachê, uma delícia! Foi a primeira vez que levei esse item para um trekking e adorei. Farei um review referente este produto.
O prato da noite na minha barraca foi miojo, misturado com sopa vono de caneca. Deixei mais sequinho, a sopa ficou tipo um molho no macarrão. Não adicionei o tempêro do miojo. Para dar um toque especial, muito queijo ralado por cima! Ficou uma delícia.
Me arrependi de não ter levado luvas, touca e o fleece. Estava frio pra caramba e ventada muito, muito mesmo!

2º Dia de trekking

Ventos fortes e muito frio marcaram essa a primeira noite. Acordei de madrugada sentindo meus pés congelando. Tratei de apalpar o saco de dormir e percebi que estava molhado. De tanto ficar rolando de um lado para outro, de frio, acabei saindo de cima do isolante térmico. A condensação da barraca escorreu nos meus pés e encharcou o saco de dormir. Tratei de deitar novamente em sobre o isolante térmico e torci para o sol nascer logo.
Eram umas 07:00hs quando resolvemos sair da barraca. O vento estava inacreditavelmente frio! O Jonas e o Diogo não tem corta vento e estavam vestindo roupas de algodão! Tentaram minimizar a ação do vento usando o poncho de chuva. Tratei de me agasalhar com tudo que tinha, e fazer umas primeiras fotos do dia. Infelizmente, nuvens carregadas logo começaram dar as caras. Fiz meu café da manhã dentro da barraca. Comi pão bisnaguinha com geléia. A idéia de levar as “geléinhas” tipo de hospital foi ótima. O café cappuccino esquentou o corpo e deu ânimo para mais um dia de trekking. Depois de todos tomarem café da manhã, sentamos para decidir o que faríamos. A previsão do tempo estava acertando. Viria um pouco de chuva nesse dia. Mais chuva o próximo, e muita chuva no domingo!
Dei a idéia, desmontar acampamento, deixar tudo dentro da mochila. Fazer um ataque ao cume do morro próximo à Pedra do Lagarto. Voltar para pegar as mochilas e retornar ao Monte Crista. Assim, poderíamos retornar para a base da montanha do sábado, sob pouca chuva, e escapar da tormenta de 57mm prevista para o domingo.
Os dois concordaram com a idéia. Pegamos os cantis, e descemos até à nascente para beber água. Na borda do pequeno poço, ao me agachar para coletar água, uma perereca verde fluorescente pulou na água.  Bem onde eu iria coletar. Isso sim é integrar-se à natureza, comentei. Enchemos os cantis e seguimos montanha a cima.
De baixo parecia que seria mais fácil e rápido. Ledo engano! Caminhando à passos lentos, tentando nos acostumar com as dores adquiridas no dia anterior, ganhamos altitude e uma ampla visão. Chegamos ao ponto mais alto do morro. O vento estava muito forte e frio! Me arrependi extremo de estar sem luvas. O Diogo estava usando meu corta vento, eu estava com a parka para neve e o Jonas de casaco de algodão!
Sentido noroeste, o tempo estava muito fechado. Podíamos avistar a Pedra da Tartaruga e a fazenda Quiriri. Lá de cima, conseguíamos avistar toda a extensão da Baía da Babitonga, Baía de Paranaguá e até a cidade de Barra do Sul, localizada uns 60 km de distância. Após algumas fotografias, resolvemos descer e partir.
Outros trekkers acampados no vale já tinham partido. Pegamos as mochilas e descemos até um local abrigado do vento, ao lado do córrego. Era meio dia. Fizemos então um almoço reforçado, sentados nas lajes do riacho sendo aquecidos pelo sol.
De barriga cheia, mochila organizada, iniciamos o retorno. Seguindo a trilha e cuidando para não se perder, seguimos num bom ritmo. Descobrimos que se perder no dia anterior foi melhor que pegar a trilha correta! A trilha correta é muito mais acentuada e longa. Sem contar que passa por trechos de capim alto, em que a mochila engata muito. Paramos para conhecer a famosa caverna. Eu nunca tinha visitado. É interessante mas não me agrada muito. Há muitos utensílios deixados por visitantes. Panelas, canecas, garrafas, lona e lixo (ou ainda mais lixo, dependendo do ponto de vista). Preferia que a caverna fosse apenas rochas, nada mais.
Considero que a caminhada seguiu prazerosa até chegarmos no acampamento próxima à cachoeira Cabeluda. Muita sujeira nesse trecho. Um bando de porcos ignorantes vem acampar ali e sem nenhum conhecimento de montanhismo, preservação e educação. Sem contar que fazem fogueiras para todo o lado, quebram arbustos para usar como lenha e poluem os córregos que cercam os acampamentos.
Desse acampamento até a escarpa do Monte Crista, é uma boa “pernada”! Bastante subida, nada de água e muito sol nas costas. Esse trecho fizemos com grande dificuldade, estávamos todos muito cansados e doloridos. Felizmente chegamos ao local de acampar sem chuva e ainda de dia. Conhecemos rapidamente um cara que estava acampado sozinho no lado de onde iriamos acampar. Largamos as mochilas e caminhamos até a fonte de água mais próxima, que fica uns cinco minutos de caminhada morro abaixo. De volta ao acampamento, montamos as barracas, organizamos as coisas e iniciamos o preparo do jantar. O prato do dia seria sopão misturado com sopa de caneca³ Elevei ao cubo porque adicionamos três sachês de sopa de caneca junto ao pacote de sopa que era pra 6 pessoas! O negócio ficou tão consistente que quase dava de cortar com a faca e comer em cubos! Sem contar que o sal, que ficou  nível extremo! Claro que quem foi o cozinheiro da gororoba à salmoura fui eu! haha
Enquanto cozinhava, ficamos conversando com nosso vizinho de barraca, o Davi. Um cara cabeludo e barbudo, magro e alto que usava um chapéu Panamá. Ao lado da barraca dele, uma pilha de livros. Davi é formado em design, mas abandonou o sistema econômico clássico. Na data em que conhecemos, estava há 21 dias acampado no Monte Crista.

Em casa, diz ter uma horta, poucas coisas e uma esposa. Ele presta serviço para uma pousada de esquemas místicos. Portanto, fica acampado guardando as coisas da pousada. Porque durante três finais de semana seguidos de maio, a pousada leva dezenas de pessoas à montanha. Ele fica lá durante esse tempo cuidando das coisas e viajando nas frases longas sem ponto ou vírgulas de assuntos religiosos, políticos, físicos e virtuais. Um cara que fala muito! Obviamente, um reflexo de ficar dias a fio sem ver pessoa alguma. Apesar de falar pra caramba, ele é gente fina. Conversamos bastante de equipamentos e coisas relacionadas à montanha. Mostramos o funcionamento do fogareiro, e sua vantagem em relação às malditas fogueiras. Imaginem, o Davi corta lenha para cozinhar, esquentar e ludibriar o acampamento para 120 pessoas no mês de maio! Essa lenha é toda cortada da mata ali nos arredores do acampamento. No meu ponto de vista, é uma degradação ambiental absurda.
A noite chegou rápido e tratamos de deitar bem cedo, às 19hs! Felizmente, por estar à apenas 900m de altitude, fazia bem menos frio.

3º Dia de Trekking

As 03hs30min da madrugada o Diogo pergunta: – Vocês estão dormindo?
Comecei a rir! Respondi que também estava acordado, Jonas fez o mesmo. Acho que as dores e o terreno duro nos fizeram ter uma noite de pouco sono. Embora não tenha feito frio. Tínhamos combinado de acordar às 05:00 da madrugada para levantar acampamento, e partir da montanha antes de a chuva nos pegar. Mas quando o relógio despertou no horário combinado, o Diogo perguntou: E aí, vamos levantar?
Respondi com outra pergunta: – O céu tá estrelado?
Ele começou a rir, abriu o zíper da barraca, olhou o céu e respondeu.: – Tá estrelado!
Então eu disse: – Bom, então vamos continuar aqui por um tempo, hehehe!
Me virei e voltei ao chochilo, aquecido no saco de dormir.
Resolvemos levantar somente as 7hrs. Tomamos um bom café da manhã, desmontamos as barracas e nos despedimos do Davi.

Pegamos água na bica próximo ao acampamento e “botamos pra baixo”! Era 09hs5min da manhã. Nessa primeira parte fui na frente. Mantendo meu ritmo (lento) de descida. Uma hora depois deixei o Diogo e o Jonas seguirem na frente. Meus joelhos com artrite não suportam descidas rápidas. Então, tenho que ir numa velocidade normal e cuidando a cada passo.
Chegamos na clareira, metade do caminho da descida, e descansamos um pouco. Dali para baixo vem a parte chata e cansativa, a saboneteira. Felizmente não estava tão tensa assim. Mas é muita lama, e por isso há que cuidar para não se sujar todo. Realmente eu e o Diogo estávamos bastante cansados. Jonas sumiu na nossa frente. Só fomos encontrá-lo quando chegamos ao rio Quiriri. Lá demos mais uns cinco minutos de descanso e fizemos o trecho final até o estacionamento na base do Monte Crista. Lavei as botas por fora, para não sujar todo o carro, comi uma carambola roubada e esperamos até o pai do Diogo vir nos buscar.

Me levaram até a rodoviária de Joinville. Dessa vez, eu acertei em ter levado uma roupa para voltar de ônibus. A polícia não veio pedir meus documentos haha!
Assim finalizamos esse trekking. Que foi cansativo mas bem aproveitado. Espero ansioso pelo momento certo de fazer a travessia completa dos Campos de Altitude do Quiriri. Que exige um ótimo condicionamento físico e um bom conhecimento em navegação. Quando eu me sentir preparado o farei!

OBSERVAÇÃO: A noite mais fria que pegamos, foi registrada como a mais fria do ano até então em SC. Registrando entre -1 à -6ºC nas regiões de serra do estado.

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Glauco
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