Trekking ao Morro Bela Vista em Jaraguá do Sul – Santa Catarina

O Morro Bela Vista tem aproximadamente 1027m de altura. Está situado exatamente na divisa dos municípios de Jaraguá do Sul e Corupá. Eu já tinha feito duas vezes hikking nessa montanha, sabia que menos de 50 pessoas chegaram ao seu cume, e também sabia que nunca alguém acampou lá em cima.

Como não nego uma aventura, convidei em torno de 7 amigos para irem junto comigo, meu pai e um morador local (que anda no mato todos os dias pois cultiva bananas). Esse morador é sempre o guia para subir essa montanha.
Porém, todos acabaram arranjando uma desculpa para não ir. Até mesmo o guia. Então, eu, o Felps e meu pai resolvemos ir mesmo assim. Uma decisão errada.
Usei minha mochila de 75L. Carregada com barraca, isolante térmico, casaco (além do que eu levava para usar na trilha) , canivete, 1,75 L de água, papel higiênico, touca, luvas, recipiente de alumínio para cozinhar, lanterna, linha de nylon e uma blusa de manga comprida. Nos bolsos da jaqueta que usei para subir, câmera digital e celular.
Para chegar a trilha, é necessário caminhar 15 min por um bananal. E quando o bananal acaba (no “pé” do morro) você já está sem fôlego!
Logo no início da trilha, percebemos que um desmoronamento impossibilitou a caminhada pela picada que existia ( e que estava fechada a 2 anos). Resolvemos subir em direção ao morro para contornarmos o desmoronamento. Depois dessa primeira dificuldade, acabamos chegando em um local muito íngreme. Que nos impedia de descer e encontrar a trilha. Resolvemos seguir.
Andando devagar e cuidando para não cair nos desfiladeiros, chegamos em um valo, de uns 20 m de largura e 15 m de profundidade. Suas paredes eram quase verticais, como não tínhamos corda, teríamos que procurar atravessá-lo em outro ponto. Subimos uns 50 m, e nada, parede vertical. Resolvemos descer margeando o desfiladeiro.
Nesse ponto já tínhamos percebido que a trilha que sempre é utilizada estava bem longe de onde estávamos. Seguimos abrindo picada. Andando mais 10 min. Uma árvore gigantesca em nosso caminho, conseguimos passar por cima de seus galhos, porém, não avistava-mos o chão.
Desse trecho em diante foi extremamente difícil. Se estivéssemos na trilha habitual, estaríamos contornando um morro menor que está em frente a parede negativa do Bela Vista. Mas nós estávamos bem em frente a parede. Resolvemos começar a descer para contornar esse morro menor. Um desastre. Encontramos uma laje de pedra de mais de 12 metros de largura, nessa lage havia apenas musgos e plantas de curta raiz. Procuramos em vários pontos uma maneira segura de atravessá-la. Mais não encontramos. Resolvemos então atravessá-la nos segurando nas bromélias e nos musgos. Essa laje tinha uma inclinação de mais ou menos 60º. Completamente lisa, apenas com umas plantas em cima. A altura dessa laje não sei dizer, porque não se tinha visão de onde começava e onde acabava. Sei apenas que se um de nós escorregasse e descesse de rolo, não iria ser fácil o resgate.
Meu pai foi na frente, suando muito e com uma expressão de que realmente estava tenso.
Cortou uma árvore de uns 6 cm de diâmetro com uns 4 metros de comprimento, e colocou atravessada sobre o ponto onde se tinha menor apoio para os pés. Dessa forma nós conseguimos atravessá-la.
Após essa parte, começamos a encontrar diversas lajes, com uma camada de folhas e raízes que não passavam de 7 cm. Subimos trecho de 30 m apenas segurando em pequenas árvores e raízes.
O lugar era muito úmido, em alguns trechos tinha lama. É incrível como subimos naqueles lugares, se alguém escorregasse não sabíamos aonde iria parar.
Depois de 2 h andando sobre lajes a atravessando desfiladeiros, chegamos a mata fechada novamente. É perceptível que o solo está todo rachado, que em breve haverá mais desmoronamentos. E é compreensível, porque nesses dois últimos anos em Santa Catarina foi um dos períodos de maiores catástrofes naturais. A mata fechada mudava constantemente sua vegetação, hora com árvores maiores, hora somente caetés e árvores fracas, e posteriormente, somente bambu e taquari. Caminhar com mochilas numa local extremamente fechado de bambu, de diversas espécies foi muito difícil. Engatava nos pés, nos braços, no pescoço e principalmente na mochila. Em certos momentos sentía-me preso em uma teia de aranha, porque não conseguia me mover para nenhum lado. A caminhada pelos bambus também levou muito tempo, e foi mais cansativa, pois caíamos diversas muitas vezes, até mesmo porque no cão há muita folha em cima do solo, que é muito úmido. Como já estive no cume, sabia que lá em cima a mata era bem mais aberta, com árvores maiores, vegetação rasteira e de fácil locomoção. Porém por algum motivo uma espécie de bambu bem final, com uns 4 mm de diâmetro dominou todo o local. O facão não corta esse tipo de bambu, e o pior, acabou tirando o corte de nosso facão.
Chegamos ao cume após 8h de subida, mas quería-mos chegar num degrau que tem no local de um grande desmoronamento que teve há mais de dez anos. Toda vez que subimos vamos para esse lugar, que não tem vegetação, somente musgo. Nesse lugar que começou o desmoronamento na época. E principalmente, nesse local é que se tem a melhor visão do vale do Itapocu.
Porém, com a proliferação desses bambus, não encontramos a trilha que lavava ao tal degrau.
Depois de andar um bom tempo no cume procurando o caminho para o tal degrau, resolvemos montar acampamento. Nessa hora me bateu um desânimo muito grande.
Eu estava com os braços cortados de bater em pedras, galhos e cortes por conta do taquari, com fome, e com braços e perna tremendo de exaustão. Abrimos a área para montar as barracas, terreno irregular, cheio de brotos de árvores, péssimo para acampar. Cada um levou sua barraca, e suprimentos para a aventura.
Na hora do meu pai montar sua barraca, cadê o sobre teto?!
Cara, fiquei puto, falei durante semana para ele verificar seu equipamento, e ele fazia sempre aquela cara de: “servi o exército e tenho experiência nesse tipo de aventura”.
Bom, ta aí o resultado, barraca sem sobre teto e sem spek. Sem spek no cume de um morro? Putz! Que furada!
Enfim, joguei o sobre teto da minha barraca de uma pessoa sobre a barraca dele, e tive que dormir na mesma barraca que ele.
Ou seja, levei minha barraca de 1,5 kg em vão!
Montado o acampamento, fizemos fogo, esquentamos água para o cup noodles e para o café. Depois de ter “jantado” as 18:00 hrs, fomos dormir.
Eu tinha meu saco de dormir para -1ºC, isolante térmico e na mochila o casaco para neve que o Igor trouxe dos EUA pra mim, (casaco que pretendo usar no mochilão pela Patagônia final do ano).
Dormi razoavelmente bem, me incomodei só com a calça molhada e as meias também molhadas.
O pai, não tinha isolante, só um cobertor de lã, disse que em momentos tremeu de frio. E o Felps, tinha saco de dormir, porém era de verão, e não tinha isolante térmico. Passou frio toda noite. Se ele tivesse falado que estava com frio eu teria emprestado uma blusa de manga comprida que acabei nem utilizando, porque não senti frio. A noite, como é de se esperar em lugares altos, ventou muito. Um vento contínuo, que não chegaria a incomodar se não desse a impressão de ser chuva.
Acordei várias vezes achando que era chuva, e ao pensar nos locais por onde tínhamos passado, com o terreno mais molhado pela chuva, seria impossível descer. De manhã, meu pai fala: Glauco! Levanta por que temos que ir embora, vai chover.
Levantei na hora! Mas ao abrir a barraca, sol!
Ufa!
Achei a temperatura agradável ao sair da barraca. Era mais ou menos 08:00 h.
Caminhei uns 25 m até uma possa de água, lavei o rosto e molhei o cabelo.
Já o pai e o Felps, acharam que estava frio e continuaram de casaco.
Fizemos o café da manhã, com barra de cereal e sanduíche só com queijo dentro.
Desmontamos o acampamento.
Antes de começar a descer, resolvemos procurar mais uma vez o tal degrau onde teve o desmoronamento.
Caminhamos no cume procurando entre os bambus, mas não achamos.
Vi uma árvore tombada pelos ventos (assim como muitas outras no cume) e dei a idéia de caminhar sobre ela para ter uma melhor visão lá de cima. Foi o que fizemos.
A árvore ainda estava verde, e estava debruçada sobre um precipício. Provavelmente estávamos sobre um dos paredões negativos.
Ao subir nos galhos, olhei pra baixo. Senti um arrepio. Era um buraco que não se via fim, apenas folhas e ramos de plantas.
Tiramos umas fotos e iniciamos a descida.
A idéia era utilizar a trilha que fizemos somente até acabarem os bambus, depois procurar a original. Porém, quando encontramos a original, vimos que ela nos levaria aos desmoronamentos que vimos no dia anterior e que não daria para transpor.
Resolvemos usar a trilha que tínhamos feito no dia anterior.
Apesar de saber que seria difícil descer aqueles paredões enormes que tínhamos subido.
Nos dois locais mais difíceis, percebemos que arriscamos demais em ter continuado a subida no dia anterior. Talvez a adrenalina tenha tirado a percepção do perigo durante a subida.
Os paredões foram bastante difíceis de descer, principalmente porque os pontos de apoio como bromélias e pequenas plantas que brotavam, estavam todos soltos. Um escorregão ali significaria um grave acidente, talvez mortal. E na laje onde nós colocamos o tronco de 4 m para passar por cima, percebemos que no dia anterior tínhamos avaliado muito mal o local. Batemos fotos para mostrar o perigo e passamos. Ainda bem que nada errado ocorreu!
Após essa parte, continuamos a trilha até chegar novamente no bananal. Que é onde se inicia a trilha.
Mapa de curvas de níveis da localidade


Vista de uma das paredes da montanha

Eu passando sobre o galho apoiado em plantas em uma laje

Uma pequena grota





Parede negativa. Infelizmente na foto, não representa o seu tamanho.

Lá no fundo o Pico Jaraguá e o Morro das Antenas

Vista de cima da árvore, no cume

Árvore no cume. Não sei porque, mas gostei dessa foto.
Descendo o morro
No machuchal

Eu e Felps

Pai
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Glauco
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