Ética na contratação de carregadores

Sherpa no Everest – Foto: David Pickford
Existem basicamente duas maneiras de se fazer um trekking de longa duração. A primeira e mais admirada, é a realização do trekking sendo autossuficiente. Ou seja, você sozinho ou com seus amigos, se preparam com equipamentos e mantimentos para um determinado período de caminhada, acampamentos e um certo isolamento. De modo geral, este estilo de praticar montanhismo é realizado por quem já tem uma boa experiência. Afinal, é preciso saber avaliar com uma boa precisão a quantidade, os tipos de alimentos deverão ser levados e quais equipamentos serão necessários. Este estilo de trekking pode ser feito com ou sem guia. O outro modo de realizar trekking de longa duração é contratando carregadores/porteadores. Neste modo de praticar montanhismo, o trekker tem a opção de não carregar seus pertences, deixando a cargo do carregador levar seus pertences. De modo geral, esta é uma maneira de diminuir os esforços para se chegar a um objetivo, por exemplo, o cume de uma montanha. A maioria das vezes estes serviços são contratados por pessoas com pouco preparo físico, inexperientes, doentes ou preguiçosos.
 
 
Minha experiência
 
 
Carregadores no Monte Roraima

Já tive oportunidade de realizar trekking dessas duas maneiras. E não tenho dúvidas de que a maneira mais engrandecedora e satisfatória, é procurando atingir o máximo de independência. Na trilha Salkantay, no Peru, realizei o trekking contratando uma agência, em que cavalos carregaram a minha mochila cargueira. Levei na mochila de ataque apenas o que era necessário para passar o dia caminhando. Como eram cavalos e não pessoas carregando minha mochila, considero uma boa opção. Importante lembrar que cada cavalo não levou mais que 50kg.

Em outra oportunidade, no trekking do Monte Roraima, também fui através de agência. Neste trekking, não seriam cavalos, e sim pessoas – índios locais – que levariam a carga do grupo. Neguei-me a deixar alguém carregar minha mochila. Decidi que faria os 7 dias de trekking levando todos meus equipamentos e montando e desmontando minha barraca todos os dias.
Todos os outros trekkings que realizei até o momento, como na Serra do Quiriri ou o último, que foi feito no ápice do inverno em Floripa, eu não utilizei nenhum carregador. Mesmo sendo de até 5 dias de duração.
 
 
O caso dos sherpas do Everest

 
Os sherpas são uma etnia da região montanhosa do Nepal. Vivem da agricultura e pecuária de subsistência, e do turismo. É um povo muito pobre, simpático e forte. Como estão aclimatados a altitude, podem carregar muito mais peso que qualquer outra pessoa.
A situação dos sherpas no Everest já vinha se tornando insustentável há anos. Nesta temporada eu espero que tenha sido seu ápice, pois foi a temporada mais trágica de todos os tempos, 16 mortes em um único evento. Os sherpas designam no montanhismo uma função função semelhante aos índios da base do Monte Roraima, o Quechuas no Peru ou os Guaranis no Monte Crista em Garuva-SC. São responsáveis por levar a maior parte da carga, preparar as rotas de escaladas e equipá-las. É claro que no Everest essas tarefas são extremamente mais árduas, mas seguem a mesma linha de funcionamento que em montanhas menores. Inclusive no pagamento, seguro de vida e plano de saúde. No caso do Everest, as falhas são cometidas por diversos setores. O governo que cobra U$ 10 mil a permissão para escalar o Everest e na morte de um sherpa oferece irrisórios U$ 400,00 para a família. As agências que cada vez mais levam pessoas despreparadas para a montanha, apenas visando o lucro. E finalmente os escaladores, que se dispõem a escalar uma montanha sem ter o preparo e ainda pondo em risco a vida dos carregadores.
 
 
A minha opinião
 
 
Escutei alguém uma vez falar que não são todas as pessoas que têm capacidade de se formar em uma faculdade. E por isso não se deve diminuir a cobrança por parte da instituição quanto ao nível de qualidade mínimo.
Eu sinceramente acho que isso vale para o montanhismo. O que vem acontecendo é que as pessoas estão perdendo a ética e deixando de lado a essência do montanhismo. Acham que com dinheiro têm o direito de comprar os cumes, encomendar indiretamente as mortes/lesões dos carregadores e ainda voltar com o sorriso na cara de vitorioso. O início do problema de todo este ciclo está no indivíduo, que sabe que não tem o conhecimento e/ou preparo suficiente, mas também sabe que é possível burlar a situação com dinheiro.
Não considero errado contratar carregadores, até mesmo porque muitas vezes essa é a principal fonte de renda do povoado. Mas temos que analisar se o carregador está sendo bem remunerado, se não está ocorrendo sobrecarregamento, se tem infra-estrutura e equipamento e se as agências não estão explorando-os. Está na hora da comunidade do montanhismo reagir a esse comércio que é nocivo. É preciso respeitar a montanha e as pessoas, deixar a ganância de lado.
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Glauco
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